quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Doença e Cura

Uma história sobre vampiros, e não sobre um único vampiro.

Autor: Fabian Balbinot
Editora: Alcance
Revisão: Lena Nascimento de Moraes
Capa: Ulisses Lima
Editoração eletrônica: Rafael Porto
Editor: Rossyr Berny



Acho importante dizer que comecei a ler o livro antes de ler a sinopse (uma forma de jogo comigo mesma, mas enfim...) e dai que não imaginava que era um livro sobre vampiros. Mas é.

A capa de Ulisses Lima é incrivelmente simples e de bom gosto. Uma mancha de sangue pincelada no fundo branco tem um ar de mistério, de pouca sugestão, de “limpeza” onde existe algo fora do lugar. Achei realmente muito boa, e realmente nada me dizia a cerca do universo sombrio dos vampiros. Dai a surpresa que me deixou alguns minutos parada até absorver a informação.
Passado o susto, e lida a sinopse, voltei para a leitura. Agora estou aqui me perguntando como começo a resenha desse livro.
Existe uma discussão que tem se apresentando com certa frequência na ficção que é até que ponto um criador (autor, cineasta, roteirista, ator e etc) pode modificar um mito, e outro ponto seria o que é melhora e o que é degradação? No coletivo inconsciente podemos até achar que pensamos, de uma maneira bem geral, separada apenas por camadas de conhecimento, da mesma forma relativo às mudanças nos mitos. Mas isso não é verdade. Pois discussões a cerca disso parecem sempre ferver, tanto com os comentários mais afoitos e apaixonados, como os que tem mais indiferença do que preocupação com a “causa das criaturas sobrenaturais”. E vampiros estão nessa roda mais que nunca e cada vez mais. Arrancando paixão e ódio.
Então, eis que existe um livro chamado “Doença e Cura” - e ai, meu deus, essa resenha vai ficar grande – que bagunça tudo mais ainda.
Mas antes, vamos à forma.
O livro tem sete capítulos (grandes, diga-se de passagem) que são na verdade diferentes acontecimentos com vampiros que tiveram algum contato com uma certa “desgraça” que os vem abatendo no mundo todo, causando todo o tipo de problemas em seus corpos e habilidades.
Doença e Cura, até então não deixa claro que a doença é o mal que acomete os vampiros (as criaturas no topo das espécies no mundo até o momento) ou se esse “mal” que os agride na verdade é a cura para a doença de “ser um vampiro”. E parece que tudo depende do ponto de vista.
Para começar, existe então esse “mal” que acomete os vampiros e se alimenta do sangue deles para continuar a existir e para evoluir. Esse “mal” porém é dotado de inteligência – e é bastante egocêntrico diga-se de passagem – pois subjuga tanto os humanos quanto os próprios vampiros sempre que aparece, e nunca se “apresenta” da mesma forma apesar de ter formas de caçar os vampiros ou estudá-los que podem se repetir.
Este foi um ponto onde Fabian Balbinot, acabou por se complicar um pouco. Os personagens que são atacados pelo “mal” não se conhecem, e essa anomalia que é genética, sanguínea, física e muito mais, acaba repetindo suas qualidades, capacidades e buscas para esses diferentes personagens, o que se tornou repetitivo e um tanto cansativo. Pois aquilo que a tal “anomalia” diz a cada manifestação quase não soma para nós, leitores, faculdades realmente novas.
A trama não nos leva a nenhum lugar especifico na geográfica que conhecemos. Cidades grandes com esgotos enormes, campos, descampados, neve, castelo, tudo na época atual mas oferecendo características físicas apenas para estabelecermos os locais em nossa mente ao bel prazer do nosso conhecimento prévio e criatividade.
Os vampiros em si não inovam tanto. Me pareceu muito com o universo criado pelo jogo de RPG: “Vampiro a Máscara” - que cá entre nós é o mais completo, detalhado e bem criado até hoje – com famílias subdividas em domínios próprios, personalidades e atributos diferentes. Mas é parecido também com vários mitos como os de vampiros que se metamorfoseiam em animais, em névoa, em sombra e tudo mais. Onde muda? Existe um enfoque para dizer que os vampiros não são mortos vivos, na verdade são uma adaptação genética com incríveis vantagens e defeitos. E como todo capricho da natureza, ela cria algo para se sobressair a eles.
Agora, deixando os vampiros um pouco de lado.
O autor escreve de uma maneira forte, acida, direta, repleta de opinião que se impõe a partir da fala dos personagens. Ele fala de preconceito de classes, da globalização, do consumo desenfreado, da tecnologia que não passa de obsolescência programada na corrida pelo ouro das industrias, da corrida da própria vida humana sem sentido. Ele toca nos grandes vazios humanos, no lixo e na podridão das cidades, no desrespeito, na individualidade, na pobreza, nas ambições, no sadismo. Ele traz crianças acima da média, pais desfigurados em sua função de responsáveis e educadores, e muito mais. E ele nunca é intermediário ou apaziguador. Ele é incisivo e quase “ditador” em suas opiniões e criticas. Mas ai é que está: Pessoalmente eu gosto desse tipo de escrita e concordei com praticamente tudo que ele diz, mas quando se é muito sincero, as possibilidades de fazer “inimigos” também é grande. E há que se ter muito cuidado para levar a sério o que é sério, e compreender o que é sarcasmo. Este livro não é apenas um divertimento.
Existe também um ar muito forte de perspicácia biológica e comparativa no livro. Com explanações em genética, predadores de todos os tamanhos, e termos complicados das mais diversas áreas da ciência natural, mas não chega a dificultar a leitura. Tudo é muito bem explicado e justificado.
O terror. Um ingrediente que foi utilizado em vários níveis e estilos. Carnificina, terror psicológico, tortura, experiencias científicas, sadismo, por ai vai. Não é um livro de grandes perseguições ou de batalhas. Ele é mais centrado, mais pausado, entrecortado e não linear.
Nos capítulos 5 e 6, existe maior linearidade, gerando um correspondência e sequências com o personagem que vem encerrar a trama, e no capítulo sete, o desfecho de tudo e os apontamentos de um futuro.
A repetição já mencionada junto com o fato dos capítulos serem bem extensos cansa um pouco, e trava a leitura, o que parece ser a forma de melhor engolir a história e compreendê-la, ou seja, por partes interdependentes, do mesmo modo que a tal “anomalia” age no mundo.
Voltando à forma novamente. O autor escreve um capítulo em forma de roteiro de teatro, por um lado, o que até então não passa de um capricho e vontade do escritor, torna-se parte da trama de um modo bastante convincente. Mas ainda assim, esse enredo poderia ter sido melhor explanado como parte de um enredo, e não a peça toda, pois por si só ele não se sustenta devido a várias características que uma peça de teatro precisaria ter.
Apesar das letras pequenas e de não haver nenhuma novidade na diagramação, ela foi bem funcional, e não me causou incomodo. A revisão também parece estar de parabéns.
Para finalizar, o livro “Doença e Cura” possui o enredo mais diferente que já li sobre vampiros. Causa muito impacto, e é importante pela qualidade que possui. Não é um simples romance com vampiros de protagonistas ou coadjuvantes, é um história sobre o universo vampírico, e como o resto do mundo (e não apenas humanos) mas a própria existência, poderia lidar com eles.

Um comentário:

  1. Essa tua resenha me deixou meio assim, embriagado, perdidaço, emocionado, tonto, boquiaberto... Credo em cruz!

    Se eu não tivesse tããããão sem tempo, juro que dava vazão à minha emoção e escrevia uns dez parágrafos sobre essa resenha maravilhosa. Mas minha vida não me pertence, pelo menos durante estas duas semanas, portanto fecho este post com um !!!ADOREI!!! que dweve sumarizar tudo o que eu gostaria de dizer.

    Beijos, abraços e muito-obrigados, de coração! =)

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...