quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Morte do Cozinheiro

Tamanho não é sinônimo de qualidade. E Allan Pitz, sabe disso.


Autor: Allan Pitz
Editor responsável: Uziel de Jesus
Revisão: Alexandra Resende
Capa: Melissa Roncete
Diagramação e acabamento: Above Publicações
Editora: Above Publicações



 

Uma característica marcante neste pequeno livro é a sagacidade na escrita. A temática abordada segue a linha: vingança, dor de cotovelo, crise amorosa, paixão desmedida, uma quase psicose e telefonemas secretos para aguçar tudo. Porém, muitas vezes não é o que se faz e sim, como se faz.
A história é contada em primeira pessoa, onde o personagem principal seria o assassino do cozinheiro, como diz o título e também logo na primeira frase do livro. Portanto das três perguntas a serem respondidas em uma história: “O que vai acontecer?”, Quem irá fazer?”, e “Como irá ser feito”, as duas primeiras já são respondidas logo de cara e substituída por uma outra: “Porque?”.
Allan Pitz não parece ser o tipo de autor – ao menos nessa história – que se preocupa com fatos e personagens mirabolantes e inovadores,o que é parte responsável pela tal “sagacidade”.
A partir do momento em que ele coloca pessoas normais, em um ambiente cotidiano e vivendo coisas que todos vivem, seus apontamentos irônicos, cruéis e desenfreados afetam a todos. Uma experiência cheia de sarcasmo desmedido – como o próprio amor do protagonista pela namorada perdida – que revira as entranhas e as arranca para a visão analítica de uma pessoa totalmente perturbada, que é o protagonista.
Existem pouquíssimos personagens, e apenas o suficiente é dito de cada um deles quando surgem.
Um ponto positivo é que como a narrativa beira a insensatez trazida pela grandiosidade de um sentimento, os personagens ganham inúmeros adjetivos e característica físicas e emocionais para que o ato do assassinato seja justificado por ele, e acabam revelando personalidades exacerbadas e caricatas. O que tem tudo haver com a proposta.
A leitura é bastante leve e fluida, cheia de imagens e metáforas que nos fazem rir, (o riso catártico, de quando se reconhece a verdade do nosso dia a dia).
A diagramação buscou ousadia, com desenhos em vermelho de um tomate cortado ao meio em todas as páginas e no cabeçalho o nome do autor e do livro também em vermelho. No papel que é bem branco, acabou ficando um pouquinho poluído. Mas tem tudo haver com a descontração e loucuras presentes no livro.
A capa em si já é uma paródia do título que também não fica atras. Super bacana, ela está totalmente de acordo com o texto, sendo até uma extensão dele.
Muitas vezes as justificativas do personagem quase chegam a convencer a nos debandar para o lado dele e concordar com o seu ato, talvez não com a consumação dele, mas sim, como muitas vezes nossos pensamentos podem ser incrivelmente cruéis e insensato por nos agredirem de alguma forma.
Não reparei em nenhum erro de revisão. O que é muito bom. Se existir, é mínimo.
As referências presentes são poucas, de um ou outro lugar no Rio de Janeiro e um ou outro escritor. A crítica está presente o tempo todo. Seja em relação ao transporte público, aos interesses mundanos e pessoais, ao dinheiro, à mídia. Tudo em que ele poe a mão vira motivo de análise e “alfinetadas”, assim como ele mesmo.
Uma questão que me causou bastante incomodo foi a falta do desfecho, ou de um desfecho mais pontual e menos etéreo. Um dos pontos mais importantes que ligam toda a trama não é explicado. Ele deixa um ou outro tênue fio condutor para interpretações, mas que não foram suficientes para realmente sugerir uma ou várias possibilidades.
Isso se poderia ser explicado com o fato do enredo ser em primeira pessoa e o personagem principal não descobrir, ou se recusar a pensar sobre o assunto. Mas se existe realmente um motivo para o autor, ele poderia dar um jeitinho de tornar sua ideia um pouco mais precisa.
O livro como todo é muito bom. Vale a pena ser lido. Juntando o fato de ser curto, de não prometer na sinopse ou no título mais do que tem a oferecer, e por ser de uma inteligência absurda relativa à construção das frases e todo o contexto, acho pouco provável que não agrade alguém.
Fica a dica.

Um comentário:

  1. Uma das melhores resenhas para o 'Cozinheiro' que eu já li até hoje! Muito obrigado, de verdade, por cada letra bem colocada (e foram todas).

    Abração,

    Allan Pitz

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...