quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Pseudo-Prefácio - O lugar do Nada.


É possível prefaciar um texto ou uma obra que não está pronta? Do mesmo modo que essa obra que, pode-se dizer, se estende e se expande quase por vontade própria e ganha o direito de se explicar e teorizar-se? Talvez seja grande prepotência falar sobre um trabalho tão imaturo, mas confesso que me chega tão forte e incrivelmente verdadeiro, e de comentários dos mais variados, que me é necessário fazê-lo.
Como no livro de Victor Hugo "Do grotesco e do sublime. Prefácio de Cromwell" A obra, como se explica no título é prefácio de uma obra maior, porém que ganhou força e independência da própria obra servindo quase como um guia entre os gêneros teatrais (épico, poesia e drama) e as referências do feio e do grotesco que tem espaço excelente e excepcional nas obras românticas. Mesmo que a intenção deste quase prefácio não seja essa, seja muito mais um exercício como a reflexão de um ator após cada improviso nos ensaios e criação ou como um músico que houve mais atentamente a execução de uma nova partitura rítmica, venho por citar essa obra pela sua ligação ainda assim cheia de autonomia entre outros quesitos expostos a seguir. Sim, e apenas um exercício.
Mas retornando ao prefácio de Victor Hugo que muito me interessa por tratar diretamente a respeito do grotesco que é uma estética que se enquadra na obra a qual me refiro, mesmo sendo na prática referência ao teatro do absurdo de Beckett e não ao romantismo ideológico e denunciador de Goethe, Schiller e também do próprio Victor Hugo. Assim é como uma associação de idéias que, de maneira alguma pretende substituir a obra ou traduzi-la, mas realizar uma ligação com suas estruturas e significação com um motivo e estrada bem palpável.
O que então move esse texto é tanto a série “Nihil” (em constante construção) - ou seja, o que há de presente no lado grotesco – como em um nível menor confesso, o grande abismo que existe entre a literatura e o teatro (mesmo que eu esteja me referindo ao teatro como dramaturgia) o que ocorre muito diferente na relação entre literatura e cinema, mesmo que essa relação não seja das mais valiosas e recíprocas e sinceras.
Então, podemos nos perguntar porque apenas Shakespeare é um dramaturgo lido como literatura e, em um nível bem menor, a obra Fausto na versão de Goethe?
As respostas são muito distintas e explicam fenômenos diferentes. Ambos os artistas são incontestáveis. Mas Shakespeare, por ser originalmente um escritor da língua inglesa, sua obra foi mais facilmente difundida e a cultura norte americana viu no universo extremamente político do mesmo um grande aprofundamento a respeito dos pesares humanos e dos amores febris. Assim sua obra ganhou o mundo moderno, de maneira descontextualizada e adocicada, mas de fato ainda uma obra incrível e de excepcional riqueza.
Já “Fausto”, ou como também é conhecido Dr. Fausto, é uma lenda alemã que ganhou os séculos e foi escrita por diferentes autores, cada um dando a elas suas peculiaridades sendo a de maior extensão e brilho, a de Goethe que registrou um linda obra em versos, e também, por ser a história do Dr. Fausto a típica fábula que educa o ser humano a não desejar igualar-se ao Criador e não fomentar ambições desmedidas. Esse mesmo tipo de moral também se encontra na obra “Frankenstein”, de Mary Shelley.
Quanto a Shakespeare e, especificamente, “Fausto” de Goethe - onde a aparição em pessoa de Mefistófeles também é um dos seus atrativos - ao passo que se lêem essas obras já tomados das certezas que se encontrarão no texto, o texto morre em grande parte, freqüentemente fica em mente aquilo que se foi dirigidamente procurar e não tudo aquilo que um texto seja ele qual for e principalmente um texto teatral tem para oferecer.
Será que é por esse motivo que não se lê (mais) dramaturgia como literatura?
Ao passo que esse tipo de pensamento lógico (e deturpado) constrói apenas barreiras na literatura e impressões artísticas no geral, se podendo ler um texto de terror sem perceber sua incrível força sensível ou uma comédia incrivelmente política e etc. (isso acontece com as obras totalmente desconhecidas também) na grande maioria das vezes de tanto receber conteúdos mastigados e embalados com rótulos temos uma necessidade de encaixar essa nova descoberta artística em uma de nossas gavetas de percepção, resumindo-a a apenas uma função e estética.
(A arte é funcional?)
Desmistificando ainda nossas percepções é necessário trabalhar o que significa cada sensação de aproximação e repulsa e mais constantemente fugir das nossas teorias e gostos engessados. (assim, vamos chegando em “Nihil”)
Voltando a ligação entre teatro e literatura há a necessidade de esclarecer que esse abismo é recente. Até o século XX o teatro tinha sua forca e peso valorizada através do texto. O personagem central do fazer cênico eram os dramaturgos. Até hoje ao se estudar história do teatro estudaremos principalmente os dramaturgos, em seguida as inovações de espaço cenográfico e em seguida os grandes encenadores. Hoje o teatro e muito mais do ator, o que torna o teatro em si mais centrado em quem se empenha no seu fazer concretamente, com muitos lados bons e muitos lados ruins que, de fato, não cabem nesse texto.
É importante citar esse abismo e saber que ele existe tanto porque é necessário ressuscitar esses textos dentro e fora do teatro para se trazer a tona o reflexo do nosso passado, refletindo assim o que o mundo de hoje é e como o todo se interliga sem intermediários e que nada, absolutamente nada está hoje como está por acaso.
Desse modo, agora eu chego a Samuel Beckett - dramaturgo nascido na Irlanda que se refugiou na França durante a segunda guerra. Segundo suas obras, o mundo visto através da obra de Samuel Beckett é sem sentido para continuar existindo, sem salvação para o homem. Muitos dizem que na obra beckettiana não há nenhuma espécie de crítica e nem humor negro, e na verdade o que nos faz rir é nossa própria catarse ao extremo, ou, como prefiro, nossa negação e surpresa diante o que é exposto.
Mas vejo, crucialmente em sua obra, que seu mundo é na verdade um espelho do nosso mundo. Não do que estamos acostumados a ver sentir e ouvir, mas sim, aquele que existe por baixo do plástico da embalagem, por baixo da maquiagem, por baixo da pele bem tratada que brilha por fora, mas, por dentro, esconde uma carne podre em decomposição, comida por vermes, doente que cheira azedume, de veias repletas de sangue venoso que, por mais esforço que se faça, continua sujo e poluído. E dessa forma caminhamos para a extinção vagarosa do que seriam nossos bons sentimentos e ideais, caminhamos para o nada, para nihil, o grande vazio supremo.
Não tenho nenhuma pretensão de igualar meus pequenos contos - contos? - a obra fabulosa desse que é um entre meus mestres.
“Nihil”, por si só, seria uma forma de existir no nada, dentro do vazio, onde as máscaras deixam de existir, mas se surgem são como maquiagem transparente. Se pode vê-la mas não serve para esconder nada. É apenas uma comicidade catastrófica.
Qual é o lugar e o momento histórico em que se vive Nihil? Durante o holocausto da segunda guerra? Um futuro próximo onde a natureza se cansa de nos manter, sua praga mais cruel e feroz, e precisa nos apagar para que ela mesma possa existir? Ou uma calamidade criada por nós mesmo, como bombas químicas ou nucleares? Seria talvez no que o planeta acaba se resumindo depois do mundo fechar os olhos enquanto os EUA destroem o gelo no norte e colocam a culpa em sprays e geladeiras?
Talvez o que aconteça depois que as pessoas de classe media e alta refugiarem-se em condomínios de luxo à sombra de grades e cercas elétricas com medo da barbárie. A barbárie que é a retomada dos excluídos e marginalizados na luta pelo direito a sobrevivência, onde todo ser humano, caça ou caçador, o que teme ou que é temido, opressor e oprimido que trocam de lugar, se levam a autodestruição.
O “Nihil” tem por premissa ser inexplicável, pois é necessário alcançar o ser humano onde ele mesmo não se entende ou não se vê como uma ferramenta de um sistema mas sim como um órgão vital de um único corpo. Não na sua forma animalesca faminta a reprodutora, mas na sua forma subjetiva indissociável ao planeta e dos demais. Como um ser criador e promovedor da melhora coletiva pois seu sentir individual depende e é reflexo do todo.
O “Nihil” isola o ser com seus e consigo, com suas mazelas, com suas limitações, com seus medos, fraquezas, obsessões e desespero que é parte perpétua da nossa maneira obcecada de existir.
Mesmo que diante a quadros tão distorcidos nem todos possam se ver, causando muitas vezes repúdio no leitor ao invés de mover nele inquietações, a subversividade de “Nihil” continua dentro daquilo pela qual ela se materializa: a incompletude, seja ela física, ideológica, emocional ou natural (relativa a natureza), é sua força motora e seu pulsar.

Publicados até o momento: 

Imagem: um rabisco meu sobre vagar estático.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Insana procurada em Cursed City.

 INSANAS.


No ultimo trimestre de 2010, após ter sido selecionada para a antologia “À Sombra do Corvo” recebi o convite mais inusitado e prazeroso que pudesse prever.

Graças a antologia de poesia sombria e posteriormente aos textos no blog Framboesas no Jardim, fui convidada ao lado de Suzy M. Hekamiah e Celly Borges para participar da antologia que viria a ser escrita apenas por mãos femininas: "Insanas... Elas Matam"


Mais do que a honra de ser uma das convidadas e estar entre escritoras como  Georgette Silen, eu precisava, justamente, escrever um conto que estivesse à altura da proposta e do convite.



Deixei-me levar por imagens, fantasias, desejos, frases fortes (péssimo termo, mas fazer o que...) que pudessem colocar no papel algo realmente cruel, pois crueldade foi o ponto insano do qual resolvi tecer a trama. Se cheguei ao resultado desejado? Resta esperar a publicação e as críticas.

A proposta de M. D. Amado é de uma beleza fascinante e de um espírito inovador.
Tudo como sempre no Estronho muito bem cuidado e com muita alma.







 

E para conhecer um pouco o espírito do livro antes de seu lançamento, é muito legal conferir o book-trailer.
 


mais à frente...

CURSED CITY.

 
Comece a rezar forasteiro. É melhor, eu avisei.
Ninguém sai dessa cidade, e normalmente, ninguém dorme também.
Ei, onde você pensa que vai? Ah sim, vai tentar fugir, bom, você deveria levar suas armas, mesmo que não lhe sirvam de nada.
Ah, então você não tem medo? Sei, sei. Chegou aqui hoje pela manhã? Uhu... Uhu...
Então essa noite você vai sentir medo, mais medo do que imaginou sentir na vida.
Sei, sei. Bom, de toda fo
rma, eu lhe avisei.
Talvez você devesse rezar. É... rezar. Não acredita em Deus? Ah, mas no diabo você vai acreditar, vai sim, principalmente depois dessa noite em Cursed City.”







Quando soube dessa outra antologia pela Editora Estronho, confesso que não me apeguei a ela. Nunca fui fã de filmes de Velho Oeste, ou derivados, esse ambiente me era um mundo longínquo apenas.
Por outro lado, como atriz preciso me adaptar e modificar e mudar e construir e destruir e construir novamente, e porque não como “escritora”? Assim, fui conduzida pelo desafio. E a construção desse conto foi isso. Me acordou durante a noite com idéias, me distraia durante meu horário de trabalho, me inspirava e me deixava insegura. Foi um longo tempo após sua conclusão em que todos os dias meus pensamentos eram: Serei ou não serei uma das procuradas em "Cursed City"?
Acontece que minha estadia nessa cidade foi incrivelmente divertida e recompensadora, tanto pelo trabalho final como por ter sido aprovada ao lado de tanta gente boa. Boa mesmo! Como uma pessoa que admiro muito, não apenas pela pessoa que é (mesmo que o conheça só um pouco) e pelo escritor que é, que em sua obra me arrancou os mais variados tipo de sensações e emoções, Alfer Medeiros, autor de Fúria Lupina.

Mais uma vez, só resta aguardar.
E claro, o trabalho gráfico mais uma vez promete, e bem ao espírito decrépito de Cursed, o book-trailer.

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