sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Castelo Montessales

Um castelo, um fantasma, uma família.

Autora: Susy Ramone
Capa: Adriano Siqueira
Ilustrações miolo: Rochett Tavares
Revisão: Georgette Silen
Diagramação: D.E.S.
Prefácio: Alfer Medeiros
Editora Literata




O livro, tanto por sua sinopse da quarta capa, quanto no blog em questão, se apresenta como uma história libidinosa, cruel, soturna e mais, ele lhe prepara para o choque de um grande tabu em nossa sociedade que são os relacionamentos sexuais entre familiares, mais precisamente entre pais e filhos, ou entre irmãos. Diante essa propaganda, certo calafrio, incomodo e muita curiosidade (e receio) surgem no estomago feito um sopro gelado, uma chama fria que inquieta antes da leitura.
Abre-se o livro, e um pouco mais do terreno do castelo é situado através do prefácio de Alfer Medeiros, onde “um aquário com mais peixes do que seria aconselhável”, - seguindo as palavras dele – é nos oferecido com alguns flashes da vida destes personagens trancafiados por uma redoma sobrenatural e misteriosa, nas mãos de um carrasco espectral e indomável.
Mas não, eu não digo isto deste livro.
Esta história é sobre outra cousa. Ela fala sobre a adversidade, sobre a solidão entre iguais, sobre o amor, mas principalmente sobre a coragem, sobre a esperança, sobre o dialogo e sobre família. A crueldade aqui, entre os seus, entre os humanos, é vinda pelas mãos desespero, e não pela maldade pura ou pela arrogância. Aqui, entre as paredes do castelo perdido em algum lugar de antigas terras (provavelmente portuguesas), o tempo que corre acelerado, é também o tempo do sofrimento, do abuso, da falta de sorte, de uma maldição, mas também é onde se cuida dos seus, na mais completa adversidade. Sim, as necessidades básicas como alimento e eletricidade são supridas por esse ser mesquinho e sádico, mas tudo o mais é plantado por eles, e para os seus, a educação, a leitura, o cuidar de que exista o mínimo de conforto no caos desse fechado universo, trancado por segredos e promessas de séculos atrás.
O romance é dividido em três partes (além dos capítulos), onde primeiro conhecemos essa atual geração, que vive no hoje sobre os ataques deste fantasma que tem como único intuito o abusar das mulheres, e que busca um modo de esclarecer tudo que há, através de uma conversa à muito adiada; o segundo é a revelação de um passado, onde a magia, que é o conhecimento das forças da natureza, é abolida durante a inquisição, em Portugal, e onde todo o mal teve início; e no terceiro, temos novamente a geração do hoje lutando por sua sobrevivência em meio a mais revelações e sofrimento e morte.
No primeiro momento, tantos nomes e diferentes personagens/narradores nos deixam um tanto confusos, mas é preciso se desapegar desta primeira lacuna e se concentrar no que interessa de fato, a história que essas narrações nos trazem. A escrita da Susy Ramone é rápida, veloz. Ella não nos prepara para o que virá, não há rodeios ou firulas, é direto ao ponto, um soco no estomago. Já no segundo momento da trama, a presença de um personagem/narrador fixo facilita o envolvimento com os acontecimentos, e o que parecia ser uma trama apenas de fantasma, ganha novos ares. Surge o segundo elemento fantástico, a bruxaria, que é tanto o conhecimento da energia, quanto do universo. Quando chegamos à terceira parte, o livro ganha ação e velocidade, tudo ocorre muito rápido na urgência de se garantir a sobrevivência. Aqui, nascem mais erros das atitudes destes personagens, alguns definitivos e inesquecíveis, daqueles que ficam marcados a fogo na alma dos que os cometem, assim como vêm as perdas dos muito queridas e o fortalecimento dos seus laços, e também o restabelecimento da confiança que só a verdade compartilhada e o fim dos segredos é capaz de plantar. Florescem aqui, o bem, e do outro lado, o mal ganha mais ferocidade e audácia, não tendo nada a perder.
Na prática, toda a libidinagem do drama, apesar de ser dita, não é descrita (não na grande maioria dos casos), o que choca aqui, então, é muito mais o conceito e as palavras veladas, do que a cena. Isso torna a leitura apta para o mais retrogrado e conservador leitor, por isso digo que, apesar de toda a tortura, crueldade, sangue e sexualidade frívola da história, o TEXTO não é erótico ou sádico, o que é muito bom. Pois aqui, o que vale é o conceito, é o que o livro nos passa em suas entrelinhas.
O Castelo Montessales é diferente de tudo que já li, pois ele, conforme ganha páginas, entra no diferente e no imaginável. A leitura é prazerosa e muito rápida. Ao fim, tive a sensação de que não havia lido um livro, mas visto um filme com peso, de ambientação soturna, que me entreteve e me tirou do meu lugar comum. Uma história que vai muito além da sinopse.
Apesar de todos os pontos positivos no livro, ele precisa de ajustes. Primeiramente uma nova revisão com separações mais claras entre a narração de cada personagem, pois com a alternância entre narrador, narrador/personagem, narrador, somada a escrita veloz e direta, já seria um bom exercício de compreensão de um efeito que eu, particularmente, gosto, porém, do modo que está, saímos da necessidade de adaptação da leitura para um esforço que nos afasta da história. Isto também se soma a diagramação que poderia abusar um pouco mais dessas trocas ajudando a esclarecê-las e contribuir para o valor físico do livro. A capa, apesar do tom enigmático, não nos liga ao que é o universo Montessales, deixando faltarum certo “que” que se assemelhe a história. O livro, de 165 páginas, precisa ter fisicamente uma aura mais próxima do que a autora nos propõe com seu romance. São pequenos ajustes que, não são o elemento principal, mas colaborariam e muito para o todo que se apresenta.
Encerro, dizendo que fui surpreendida todo o tempo pelo que lia. Que a escrita da Susy Ramone é gostosa, fruída, tangível. Um livro que me ganhou no decorrer de cada página por ser nada daquilo que eu esperava. Um surpresa e tanto de elementos fantásticos e sobre como eles se apresentam e podem ser entrelaçados para contar uma história que vai muito além de violência e temor. Uma história que nos confere à esperança, como uma flor que nasce em meio ao caos da poluição, que é o mal, e o concreto, que é a dor.

Mais sobre este arrepiante livro no blog: montessales.blogspot.com.br

VII Demônios Vol. 1 Inveja-Leviathan

O veneno da sanidade. A doença antiga.

Ilustração de Capa: Pieter Brueghel
Ilustrações internas: Gustave Doré, Lileya e Diana DK 
Capa e diagramação: M. D. Amado 
Revisão: Celly Borges 
Editor responsável: M. D. Amado 
Editora Estronho 
Vários autores



Rafael Montes: “As Irmãs, Valia, Velma e Vonda” 
Donde brota a inveja? Ela deseja aquele que tem, ou aquilo que pertence ao outro. Até onde vai o querer ser outro? Rafael Montes, trás no seu conto, que abre a antologia, personagens que se descobrem a medida que também nos são reveladas e os sentimentos crescem, seguindo por um caminho confuso, difícil de entender, assim como o tal sentimento obscuro. E chega então a crueldade para fazer valer o sofrimento. Aqui, essas três irmãs tem para si um final inacreditável, escritas por linhas tortas, mentirosas e maculadas com sangue. 

Richard Diegues: “O Ferro é Palha, o Bronze Pau Podre” 
Aqui, o autor nos brinda outra vez com seu, já costumeiro, texto peculiarmente bem escrito e lapidado. Pensado em cada detalhe, de falas certeiras que envolvem e aprisionam. Uma história que na verdade é uma passagem. Uma fantasia junto à distopia. Uma criatura demoníaca junto a alguém que muito deseja e nada tem a perder. 

Fabiane Guimarães: “Duas Vezes Ana” 
Pode seu outro, igual a ti, invejar o que é? Nesta história a confusão entre real e imaginário, entre as nuances de uma mente perturbada ou uma criatura espectral e soturna conduzem a história. É fácil se apiedar do mal e daquele que sofre. É impossível distinguir. Mas a inveja destruidora está lá, matando e mentindo como o torto reflexo de uma mente turva no espelho. 

Valentina Silva Ferreira: “Chora, Mia, Chora” 
Neste conto a autora não poupa sangue e crueldade para os atos de sua personagem. O cotidiano da loucura que é matar pela inveja, assemelha-se a cozinhar. Para sua personagem principal não há limites, nem lugar certo onde chegar, há apenas o caminhar, o fazer, o ato continuo, quase ininterrupto de se vingar, de se fazer valer, de velar sua indignação, seu vazio, seus sentimentos angulares e cruéis. Uma vontade que nunca será saciada, mas que precisa de alimento constante em seguidas noites de rios de sangue e pó de putrefação. 

Davi M. Gonzales: “Pablo, Meu Querido Irmão” 
Esta história começa de uma forma totalmente diferente, assemelhando-se a um relato de um estudioso sobre certo poder místico. E depois, vai para o ceio de uma família, onde dois irmãos enfrentam um mal do qual parece não haver escapatória, provindo de uma inércia constate e fatídica que acomete um deles. Muito é feito, muito mais ainda é ignorado. E a vida segue. Quando menos se espera a revelação é feita. Cruel, fria, aniquilando as esperanças, e aqui, a inveja vence em uma sinfonia teatral. 

Lemos Milani: “Inumana” 
Se a inveja é um sentimento humano, demoníaco ou animalesco, ela poderia ser também provinda de um ser inanimado? Mas caso isso fosse possível, não passaria esse que a tem, a ser tão humano quanto aqueles que lhes despertam tal sentimento? Passado tal estranhamento, o que temos é o terror, aquele mais antigo, aquele mais ardiloso, que é não se saber ter um inimigo que lhe espreita e que, não podendo ter aquilo que deseja, se vinga. A história de uma família é vista aqui sobre outro ponto de vista, uma espectador comum a todos, mas silencioso e que trás arrepios em uma trama que se encerra de um modo cruel e forte. 

Evandro Guerra: “O Círculo do Demônio” 
Mais um laço familiar se quebra. Apesar de algumas criaturas aparecem e sumirem do texto sem que se entenda bem o porquê, (afinal podiam ser simples guerreiros inimigos), mas esse estranhamento passa logo no começo, e o que de fato importa tem início. Um toma o lugar do outro, mas não como se imagina, não por ser cruel. Tudo então é o contrário. Aquele que perde, perde não pelo desejo do outro, e sim por suas próprias falhas, por seu próprio egoísmo ou talvez, orgulho. E então, a inveja nasce para aquele que perdeu. As vozes sopram em sua mente. Nada é exatamente o que parece ser nesta história muito bela e tocante. 

Eriwelton Alves: “Desejo de Pecar” 
Criaturas. Um conto de terror, muito bem arquitetado e de arrepiar, onde se ganha o que se deseja, a um preço incrivelmente alto. A inveja aqui, porém, ao menos no personagem principal é motivada pela vontade de vingar-se. Um diferencial dos outros contos onde a inveja é que faz nascer a aniquilação daquilo ou daquele que se deseja. Em “Desejo de Pecar” o que há, é um ser bom que, embebido pela dor e pela perda, quer ter a mais impiedosa e vil capacidade, e por isso se vende e tem sua paga. Um conto que me agradou demais. De causar calafrios. 

Leona Volpe: “O Lago” 
Um conto atemporal como os contos de fadas, perdido na própria imaginação como uma fábula. Aqui, as atitudes daqueles que são diferentes no mesmo tanto que se parecem conduzem uma trama que mais parece uma história soprada pelo vento. Um conto muito belo e triste, onde a inveja não quer que se concretize e se tenha o objeto de desejo, e sim, apenas e puramente fazer com que deixe de existir. O conto que mais me fez refletir.

Maurício Pessoa Pecin: “O Veneno da Alma” 
Uma personagem feminina em busca da tão sonhada perfeição física vai ao extremo para consegui-la. Uma trama cruel e um caminho truculento e cheio de sangue marca essa jornada, de um modo que parece nunca findar, revelando ainda alguns segredos. Magia e a força demoníaca se manifestam por um final sem nenhum “final feliz”. Um conto onde só existe um vencedor, a própria inveja e sua manifestação. Um conto onde autopiedade, determinação e poder se unem drasticamente.

Alliah: “Fogo Negro” 
O simples momento de se degustar um chá se transforma no incrédulo. Um lugar pacato que esconde o mal onde e naquele que menos se espera. Uma história ornamentada que se passa em um único e derradeiro instante, sugando energia e derramando passado. Personagens profundos, únicos, inimagináveis com medos antigos e sentimentos confusos. Um drama tocante.

George Amaral: “Momentos Engarrafados” 
George Amaral nos leva a um ambiente comum, até mesmo pobre, cotidiano, poluidamente metropolitano em um prédio no centro da cidade, onde, o personagem principal se vê entre seu casamento que desaba por falta de carinho (mesmo que seus amigos o invejem) e um mistério nublado e vaporoso e úmido que os envolve. Aqui, a inveja é tanto um sentimento de foco, de único objeto de desejo, como por outro lado, um sentimento magnânimo, incontrolável como a cleptomania, que não tem destino ou querer próprio, ela apenas se manifesta, ganha força, agarra-se com tentáculos a tudo que vê e não pode ter. Um sentimento, não suicida, mas indomável, que prende em sua teia, todos, através de criaturas misteriosas que se confundem com lembranças de sonhos ou memórias apagadas. Um conto de cair o queixo. Inebriante e que segura-nos às palavras do começo ao fim. Este é, sem dúvida, meu conto favorito desta antologia.

Sheilla Liz: “O Fruto de Abarondê” 
Tendo como cenário uma tribo indígena, a mais remota das remotas, e colonos europeus, uma índia confessa seus atos, distribui sua culpa e sentencia seus sentimentos. Aqui, a busca pelo que é do outro, leva a personagem ao mais cruel ato que pela magia cria o seu desejo. A sentença é dada, mas o pesar recai sobre todos em um conto de ótima ambientação, repleto de dor, paixão e culpa. 

Ghad Arddhu: “O Obsessor no Caminho de Ígneo de Bodisatva” 
Uma escrita rebuscada, onírica, e cheia de artefatos cria esse novo mundo de energias, novos limites, luzes e sentimentos. Uma batalha tremenda, a epifania do herói e o caos. Elementos de um conto complexo, parte de um todo corrompido também pela inveja. O início de uma saga que tem como foco, aparentemente, mostrar o bem. 

Como conteúdo, este primeiro volume da série de sete livros intitulada “VII Demônios” trás uma coleção de contos de estruturas e escritas muito diferentes entre si, caminhando por estradas iguais ou paralelas desse sentimento. Uns, abusando de novas ou improváveis ambientações, outros trazendo diferentes inimigos fantásticos, alguns falando principalmente do humano, do frágil, e outros ainda, personificando o próprio Leviathan a seu modo. 
A leitura tem um grande peso reflexivo e alguns cantos inóspitos a serem desbravados – assim como Ana, do conto de Fabiane Guimarães, posso pensar diante a leitura "até onde me espelho?" – e então, mas apenas talvez, seja está massa carnal e instintiva a inveja: os cantos obscuros de nossa humanidade. Afinal, quem nunca a teve dentro de si, por mais remotamente que tenha sido, este pecado? E será que somo capazes de confessá-la, como a índia de Sheilla Liz, nos tornando nus perante a nossa imperfeição? O fato é que, muito provavelmente, a maioria de nós se contenha com tentar anular este sentimento, ou buscar sacia-lo de modo não tão sanguinário e cruel. Mas e nosso pensamento... nossos sonhos, até onde vão? Assim, esses contos escritos no passado, no presente, no futuro ou em qualquer tempo não nomeado, são esses deságues do que é muito mais humano do que se possa imaginar, se, por ventura, nos apropriamos em elucubrações do que seria capaz o demônio Leviathan ter criado. 

Já na parte física do livro, uma capa linda e forte, cheia de detalhes e densa e confusa abre essa coleção, com a primorosa diagramação da Ed. Estronho em um estilo que está tanto no velho, no delicado, quanto para o morto e o antigo. O detalhes são inúmeros e estão em cada pequeno espaço da diagramação cuidada e adornada.

No todo, através dessa seleção de textos, este livro é um amarelado (metafórico) de páginas que nos levam àquilo que nos é muito intimo e antigo, afinal, não foi o primeiro anjo que invejou o criador?

Mais sobre a série no link: Editora Estronho - VII Demônios.
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