quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Arquiteto do Esquecimento

Uma vida inteira que se desdobra.

Autor: Marcos Bulzara
1ª Edição 2009
Coordenação: Valter Jeronymo – Life Editora
Projeto Gráfico: Mota Junior
Capa e Ilustrações (Criação e Finalização): Luiz Roberto Farias Filho
Revisão: Valter Jeronymo
Revisão Final: Neide Poli
Impressão e Acabamento: Gráfica Viena
Life Editora.




É curioso como certos temas, bastante recorrentes, tem a capacidade de encantar ou nos distanciar de uma obra de ficção por motivos difíceis de reconhecer ou entender. Reutilizar fórmulas ou idéias te deixa sempre no limite entre o formal e o íntimo, próximo. Não é para tanto que o romance de Marcos Bulzara se perpetua nesse limiar.
O livro, em verdade, conta a história de um judeu polonês antes, durante e depois da Segunda Guerra, com suas perdas, suas lembranças, suas aflições, medos, e vitórias. E o que há de diferente em Doran, o personagem principal, é que ele é um gênio. Alguém com uma grande capacidade de raciocínio e aprendizado.
Particularmente, sou fã dos fatos e histórias que se passam durante esta época da história, como há de haver muitos outros, e o autor foi muito venturoso nessa empreitada. Tanto as descrições da pacata cidade natal do personagem, quanto o campo de concentração são muito fortes, bonitas, cheias de vida (ou morte no segundo caso) e reais.
Outro fator muito interessante é a qualidade e estrutura emocional dos personagens chaves que na verdade são os de maior importância para Doran. Eles têm seu brilho próprio, mas não o suficiente para ofuscar o protagonista. Já os demais personagens ficaram um tanto estereotipados, sem aprofundamento, cumprindo apenas seus papéis de maneira rápida e sem ganhar o leitor.
No entanto, em relação à estrutura duas coisas me incomodaram bastante.
A primeira foi a repetição. Idéias, temas, sentimentos são insistentemente usados durante o livro, onde, o autor, em curtos espaços, repete sensações do protagonista, o que acaba deixando a leitura cansativa algumas vezes.
Em segundo lugar é que o autor cisma em fazer um suspense que não convence, dizendo que esse ou aquele personagem irá sofrer como não imaginaria, que o inesperado vai acontecer, que essa ou aquela pessoa virá a se revelar de modo inesperado, que muito sofrimento estaria por vir e por ai segue.
Estes dois fatores fazem com que um livro que guarda uma ótima idéia, e muita emoção, se torne mais extenso que o necessário e um tanto difícil de ler.
Mas nós não estamos falando de um Best Seller? Sim, estamos.
Apesar de não gostar de discursar sobre esse mérito (visto que ser Best Seller nem sempre garante que um livro é realmente bom) acho interessante ressaltar que a história criada por Marcos Bulzara é uma história envolvente, emocionante, que pode arrancar lágrimas e sobressaltos, além é claro, de tocar na ferida eterna e recente que foi a “ditadura hitlerista”.
Apesar dos pontos que considero negativo, não enxergar a complexidade da obra que provavelmente foi feita com muita pesquisa, cuidado, trato e dedicação, seria injusto e errado.
O livro foi feito para se emocionar, e ainda assim busca um questionamento, mas que fica mais como cenário do que como ponto chave. E ai chegamos no que realmente confere ao título.
Esquecimento. O que seriamos capazes de fazer para esquecer coisas do passado? O que gostaríamos de esquecer? Ou ainda, porque a humanidade cisma em fingir não se lembrar de tantas calamidades causadas (como guerras) e repetir seus erros?
Neste romance, você não encontrará as respostas. Nenhuma delas. Mas irá se deparar com a realidade de alguém (um alguém ficcional) que viveu essas questões.
Em volta desse universo, nos depararemos com organizações secretas, jogos de poder, corrupção, capitalismo, algumas perseguições, fugas, sangue, e muito sofrimento. Tudo amarrado para construir a trama que envolve a vida do personagem (e talvez nossa realidade).
Em relação ao livro como objeto, as folhas são de um material muito bom, a formatação é grande e faz com que se ganhe as páginas rapidamente. A capa é interessante, a ampulheta parece marcar o tempo severo. É uma arte interessante, mas sem muita ligação com o “esquecimento”, porém, é chamativa e desperta a curiosidade para com a história.
No geral, é uma história muito bonita, sensível, envolvente. Com atmosfera melancólica, cheia de sutilezas. Ideal para quem gosta de se emocionar e se entregar às dificuldades da vida, e também, à esperança e alegria recorrentes às relações de afeto.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Deus Ex Machina – Anjos e Demônios na Era do Vapor

Vapor e mitologia em prol da literatura fantástica.


Vários Autores
Editora Estronho
Organização: Cândido Ruiz, Tatiana Ruiz, M. D. Amado
Montagem e arte da capa: M. D. Amado
Diagramação: M. D. Amado
Revisão: Celly Borges



“Deus Ex Machina” é outra das antologias da Editora Estronho com chamada e proposta criativa, que se diferencia também pelo capricho da edição. Em uma ambiente bastante saturado da literatura fantástica que é a “Guerra entre anjos e demônios” , os organizadores optaram por mesclar ao enredo a tecnologia Steampunk como objeto principal de trabalho para os escritores, ou até mesmo pano de fundo. De fato, não é uma temática fácil, e no final foram selecionados doze escritores que se juntaram ao convidado Romeu Martins, todos para nos contar de diferentes pontos de vista, e com bastante criatividade, caminhos e desventuras dessa grandiosa batalha.

O prefácio ficou por conta de Bruno Accioly, que nos indica que a viajem é para além de uma literatura de ficção sim, mas ficção de um passado que nunca existiu, (como é de fato uma característica do Steampunk), e que nesta feita, alinha-se ao celestial e ao improvável. Aqui, encontramos já o estilo um pouco mais rebuscado e de parâmetros cultos na escrita, o que esteticamente falando, já nos remete pela própria estrutura à época onde o gênero Steam é passado. Estilo esse que, em muitos contos, torna a aparecer.

Assim, aviso. Para os leitores desacostumados ou que preferem a simplicidade do coloquial pode não ser o tipo de obra a ser mais apreciada, mas tanto aos leitores que não se importem de por as engrenagens do seu cérebro para funcionar no desbravamento dessas frases ou para àquele que já está acostumado, “Deus Ex Machina” será um deleite de forma e conteúdo.

"Observação. Sempre que o termo “guerra” for utilizado, me refiro à guerra fictícia sugerida como proposta da antologia, e o termo “tecnologia” ao próprio gênero Steampunk.
Em segundo lugar, não sou uma entendida deste mesmo gênero, assim sendo, não avalio em nenhuma hipótese o quanto o que é apresentado se enquadra mais ou menos nesta temática."

Quem abre as narrativas é o convidado Romeu Martins (mais sobre ele e seus trabalhos no blog Cidade Phantastica) com “A diabólica comédia” (seria uma referência direta à "A divina comédia" de Dante?). Um conto onde interesses pessoais falam mais forte do que o “sangue” nessa batalha. Ele cruza diferentes mitologias levando a história aos primórdios da guerra. A tecnologia é um ponto interessante colocada sem prejudicar a fluência da leitura. Tudo bem equilibrado e com ótimas imagens.

“A seita do Ferrabraz” de Paulo Fodra já nos trás ao ambiente nacional, realizando toda a trama no Brasil. O personagem principal é um humano, que passa a viver acreditando que tudo que ocorre com ele é uma preparação para o seu futuro. O interessante aqui é que passamos um bom tempo na vida quase pacata desse homem sem saber ao certo o que irá acontecer. Até que tudo passa a fazer sentido quando sua missão se revela. Aqui, nesta história cheia de arrepios e cenário levemente sinistro, a tecnologia chega para cravar o início da guerra. Uma personagem coadjuvantemente me marcou muito, pois foi muito bem construída. E no fim nada é o que parece ser, ou quase. Gostei muito deste, cheio de arrepios e futuro incerto.

Norberto Silva, veio trazendo um pouco de ação ao livro. No seu conto “Anhaguera”, as surpresas não param. Com um ar bem nacional também, em uma cidade do interior (com um cenário muito real e de descrição excelente) nos envolvemos em mais uma batalha individual entre um ser celeste e um endemoniado. Aqui também nos aguardam surpresas de todo tipo. A tecnologia é explorada de maneira interessante e funcional, reservando também surpresas. Tudo é muito rápido, e o conto reflete certa urgência. Aqui a leitura também flui bem. Tema pesado, leitura leve. Boa dupla, ótimo conto.

Índios? Sim, índios! “O dia do grande Uirá” é sem dúvida um conto incrível. Ousado, criativo, e tão bem escrito que parece simples, mas não é. Aqui, Davi M. Gonzales abusou da “brasilidade” onde a maior parte da história é contada do ponto de vista desse povo que não tem absolutamente nenhum contato racional com qualquer tecnologia que seja. Onde tudo acaba surgindo através do olhar místico desse povo. As pistas se confirmam no fim. Onde pode-se notar preocupação com a natureza, e forte presença de corrupção e interesses políticos. Um diferencial é sua visão acerca de “anjos e demônios” e da própria guerra. Poético. Muito belo. Também gostei bastante.

“Nefilin” de Carlos Machado é um conto um pouco confuso, mas que com um pouco de atenção, pode-se desdobrar facilmente o quebra cabeça. Aqui, a presença de humanos também é forte, mas devido a quantidade de personagens, não é possível se aprofundar em nenhum deles. A verdade é que a história é boa, a guerra esta fortemente presente assim como a própria tecnologia, e uma ideia geral dos acontecimentos acaba ficando mais importante do que esse ou aquele personagem, mesmo que o desfecho revele algo surpreendente a cerca de um deles em especial. Aqui também tem espaço para viagens no tempo. Tudo parece um grande jogo de xadrez, onde nenhuma peça é movida sem repercutir em algo decisivo, não importando para qual lado.

Quando li o título “Zeitgeist – Brigada anti-incêndio” só tive certeza de uma coisa: não fazia ideia do que encontraria pela frente. (Até agora tento descobrir se teve alguma inspiração em ZeitgeistMovie). Mas falando sobre o conto de Yuri Wittlich Cortez: A tecnologia Steam é a base da narrativa, presente todo o tempo, visto logo a caracterização do personagem principal. Aqui, o improvável se junta ao que seria palpável. As surpresas ficam mais por conta dos segredos dos personagens que são muito carismáticos e diferentes, do que a “batalha final” em si. Obs: Durante metade do conto me lembrei da história de Ícaro.Não há grandes referências, mas a história sustenta-se por si só.

“O Sheol de Abaddon” de Alliah, fez uma aposta diferente. Aqui, a cultura egípcia ganha destaque entre engrenagens, a vingança de um demônio e, até mesmo, a visita a uma época remota, a mais remota de todas, e também a uma Inglaterra decrépita. A linguagem empregada é rebuscada, com algumas palavras nada presentes no cotidiano. Esta receita (e não fórmula) deu-se em uma história muito criativa, de temática forte, e com surpresas. Porém, com tantos elementos e referências diversas não consegui me aproximar da trama ou de algum personagem, seja o herói ou o antagonista, refletindo um enredo que não me tocou. Mas isto é uma questão de gosto e não de qualidade, visto ser um conto muito bem trabalhado.

Com personagens da mitologia grega repaginados no estilo steampunk, Georgette Silen, em seu conto “Avatar de Anjo” conta o início da guerra (prevista há muito tempo) que foi alterada devido a uma atitude isolada e corajosa. Aqui, o próprio inferno e céu existem graças a essa tecnologia. A maior parte do enredo narra uma estratégia isolada para que então, se possa entender sua trama apenas no fim. Achei a primeira parte um pouco cansativa, a quantidade de detalhes é imensa (poderia até assemelhá-la ao realismo que descreve cenário e ações minuciosamente), e a ação e os porquês demoram a acontecer. O final é bem interessante, mas não causa grande surpresas.

Então O. S. Berquó nos dá uma referência totalmente atual em relação ao tempo passado onde se passa a história. A trama é bem cuidada, enlaçada, e tem uma ambientação que me agradou muito. A tecnologia não está em primeiro plano, mas é cuidadosamente colocada ao desvendar o mistério passado. Aqui anjos e demônios não estão, necessariamente, em pé de guerra. Tudo é bastante subjetivo e a trama “A obscura história de Stelling Railways”, vêm com um toque de ação no final para incrementar. Destaque para a construção pouco linear.

“O pai das mentiras” de Leonilson Lopes, abusou bem do cenário da guerra, e a tecnologia pareceu bem empregada (com um verdadeiro “Deus Ex Machina” no final), mas senti o autor facilitando as coisas para os personagens. A história cumpre o papel de registro de uma batalha no meio de uma grande guerra, mas faltou um “quê” especial.

Já em “A máquina dos sonhos” de Daniel I. Dutra, anjos e demônios estão em guerra, mas sem afetar o mundo dos humanos de maneira chamativa. Eles atuam entre nós sem que a gente perceba, e é do mesmo modo que eles são apresentados na trama. O personagem principal foi muito bem construído, assim como as referências históricas citadas no enredo. A tecnologia foi empregada na medida certa, com seu grau de importância devido, e bastante peculiar. A leitura flui bem, as expectativas valem a pena, e o fim é ótimo.

Alex Nery entrou muito bem no espírito Steam, tanto na ambientação, como no personagem principal e nas descrições dos artefatos. Anjos e demônios são só uma pitada de requinte para o seu enredo. O aprofundamento do personagem é ótimo e dá vontade de devorar a história. A criatividade no conto “Os relógios pensantes de sua majestade” foi o ponto chave para uma trama envolvente, bem escrita, e forte. E aqui, a guerra é outra, talvez, muito mais cruel e com certeza, mais real. Outro que gostei muito.

Finalizando a antologia, “Cálico: entre o céu e o inferno” é uma história cheia de ação, onde tudo acontece muito rápido: descobertas, revelações, perseguições, tiros, voos, e em um único folego. Rebeca Bacin, investiu em uma personagem feminina, uma mulher que diante à situações extremas toma atitudes extremas e se revela mais capaz do que imaginava. O ponto baixo do conto é que tudo é tão rápido que a aceitação do improvável é muito simples, e com base em plena “intuição” a personagem se torna apita e resolve o mistério principal sem nenhum esforço. A tecnologia foi pouco explicada, fiquei com a sensação de ter “assistido um trailer”. A ideia é muito boa, mas poderia ter sido melhor desenvolvida.

O livro em si, reafirmo, tem muito a oferecer, e acho pouco provável não agradar.
A capa e diagramação são lindas, assim como as imagens internas. O papel é de ótima qualidade. Gostei muito da arte empregada pois remete mesmo ao mundo cheio de névoas de vapor e decadência. A parte interna da capa tem uma coloração tão real que parece realmente uma parede a descascar, repleta de ferrugem. E no meio do livro, umas imagens em papel de alta qualidade e coloridas dão um toque especial. Trabalhar com as cores “preto” e laranja (entrando assim no envelhecimento do cinza e na ferrugem) tornou o aspecto realista, caprichado e sombrio. Foram ótimas escolhas.

Os contos acabaram remetendo mais à batalhas individuais do que à cenas de grande destruição ou da guerra em proporções globais, sendo que, entre eles, existem verdadeiras pérolas de criatividade e ousadia.

Se a temática lhe agrada de alguma forma, a editora disponibiliza a degustação e mais informações, junto com lindas fotos aqui Deus Ex Machina

Vale a pena conferir.

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