quinta-feira, 29 de setembro de 2011

No dia da leitura leia um livro lusófono.








Dia 12 de outubro é o Dia Nacional da Leitura, e o Alvaro Domingues do Blog do pai nerd começou a divulgar pelo facebook a ideia de neste dia ler um livro lusófono, ou seja, português, brasileiro, angolano, moçambicano, açoriano, etc..

Para deixar ainda mais interessante a Celly Borges do Mundo de Fantas nos deu a ideia de nesse dia postarmos a resenha de um livro nesse parâmetro.

Apesar de por aqui só ter resenha de livros nacionais, resolvi participar também.

Ah, mas 12 de outubro não é o dia das crianças? Sim, também é. Então vamos falar um pouquinho sobre esse projeto entusiasta mas bastante pé no chão.

“Todo dia é dia de ler. Lê pra mim?” A ideia do projeto que já existe a três anos é de justamente incentivar a leitura com e para as crianças. Os aficionados por livros sabem, a leitura pode mudar a vida das pessoas.

O projeto na integra e varias formas de participar você encontra aqui: ecofuturo.org.br


Então, Alvaro Domingues e Celly Borges, aceito e vou colocar as mãos à obra, pois com certeza, dia 12 teremos uma resenha muito especial por aqui. Qual será? Surpresa.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Reino das Névoas

Sete mundos onde a fantasia é tão bela quanto cruel.


Autora: Camila Fernandes
Capa e ilustrações: Mila F. (a autora)
Editores: Richard Diegues e Gianpaolo Celli
Revisão: Luciana Garcia
Projeto gráfico e Diagramação: Fabiana Fernandes
Tarja Editorial Ltda.





O Livro da ilustradora, revisora e contista, Camila Fernandes, tem um diferencial antes de tudo, como projeto, pois a autora foi selecionada pelo ProAc (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo) através de um edital para a impressão de sua obra. Isso é claro que já é por si só um mérito, porém, quando penso na capacidade que ela demostrou para conseguir o edital com um projeto que tinha como premissa – assim imagino – falar sobre a verdade por trás dos contos de fadas, ou contos de fadas para adultos, é que também reflito sobre como ela deve ter se esforçado desde então. Mas o que vale constatar é que o prêmio foi muito bem colocado e o livro que se formou é realmente muito bom.
Falando sobre a estética do livro, desde a belíssima capa, o cuidado e o trato já se mostra aparente e de muito bom gosto. E por dentro você também encontra sete ilustrações que correspondem respectivamente a sete contos de sua autoria. Os desenhos em tons de cinza são delicados, mas de traços firmes e cheios de detalhes, e me levou até as pinturas em vitrais, tapeçarias, livros antigos e qualquer outra sensação que já contribui para a atmosfera das histórias, um tempo distante e imemorial. Não são desenhos realistas, pelo contrário, estão estilizados bem ao ponto da fantasia.
O livro também é impresso em um papel (aparentemente reciclado) de tonalidade amarelada e muito resistente. Da gosto tocar as páginas enquanto se imerge nas palavras.
Não há erros de revisão. O que também está de parabéns.
O livro saiu pela Tarja Editorial que fez um trabalho excelente na diagramação que ficou simples, funcional e muito bela.
Agora, vamos às escritas.
O livro traz na sinopse contos de fadas cheios de verdades, crueldade, violência e erotismo, características que foram banidas das histórias originalmente. E a Camila cumpriu o que prometeu de um modo diferente do que eu esperei.
Por essa chamada eu imaginava algo que caminhasse muito mais pelo soturno do que pela fantasia, e eu me enganei, e gostei disso ter acontecido. A autora conseguiu trazer à tona tudo que prometera sem romper com a beleza, a magia etérea na qual os contos de fadas se tornaram para nós hoje como referência.
Pensando então sobre eles, acredito haver três tipos de contos – ao meu ver – pelos quais ela nos guia.
Há histórias em que tudo é totalmente novo. Os personagens são erguidos de fontes antes nunca provadas, e as tramas ricas em detalhes e surpresas nos levam a situações sublimes e vencedoras, mesmo que através de caminhos sombrios e truculentos, e seriam “O Chifre Negro”, “A Outra Margem do Rio” e “A Espera”.
Um outro tipo de conto é uma espécie de cotidiano fantástico, onde tudo é simples, quieto, bastante melancólico e quase irônico, aqui eu encaixaria “O Lenhador e a Sombra” e “A filha do Fidalgo”, que são histórias tocantes mais pela sua parcela de realidado do que pelo encantamento ou sobrenatural.
E “A Torre Onde Ela Dorme” e “Reino das Névoas”, são incriveis, mas me deixaram em cima do muro. Gostei muito de ambos, são minuciosamente trabalhados e é impossível parar a leitura no meio, os personagens são fortes e têm as tramas mais complexas, porém, seja inspiração ou releitura, é fortemente presente a semelhança com contos de fadas conhecidos.(Isso também há no “A Filha do Fidalgo”, mas ainda assim este se encaixa melhor na separação anterior.) Talvez eu realmente não imaginasse que esse tipo de características fosse surgir no livro. O que acontece então é que lindas histórias não ficam presas em si, elas acabam nos levando para essas outras histórias conhecidas, o que é tanto repertório quando certa fuga do enredo principal.
Os sete contos, como dito, são de grande beleza. Camila Fernandes soube traçar as palavras sem adornos, sem grandes metáforas ou qualquer complicação, dando a sensação de que se pode contar e ouvi-las sem problema, pois elas envolvem pela emoção e pelas paixões.
A criatividade da autora também se revela nos males que ela trouxe para as histórias, desde estupro, até melancolia e uma necromante. Porém as cenas mais densas são rápidas, são flashes que nos assustam e só nos damos conta depois de terem partido. Outras vezes são tão cruas e verdadeiras que acabam chocando ainda mais. São fantasias muito reais.
É um livro de contos que cumpre sua principal função, quando acaba uma história lhe da vontade de correr para a próxima e devorá-lo. A leitura flui muito bem, é cheia de diferentes sensações e prazeres.
Não é o tipo de livro de terror, de grande batalhas ou carnificina. É um livro de fantasias palpáveis e que uma mente aberta facilmente assimila e mergulha. Leia. Recomendo.
“Reino das Névoas – contos de fadas para adultos” não é só um lindo livro com uma linda capa (a mais bela que vi até hoje dentro e fora da literatura nacional) como é uma ótima leitura. Um livro de conteúdo que presa o cuidado com as palavras, a sinceridade e um entretenimento que nos ensina e nos faz pensar com sutileza a cerca de vida, e com seriedade a respeito dos mitos nos quais muitas vezes nos baseamos para formar nossas personalidades mesmo sem querer.

Mais sobre o livro, ilustrações e outras resenhas você encontra aqui:

Onde comprar você também encontra no blog acima, mas eu sugiro na Loja da Estronho, onde você ganha dois marcadores de página.




quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Doença e Cura

Uma história sobre vampiros, e não sobre um único vampiro.

Autor: Fabian Balbinot
Editora: Alcance
Revisão: Lena Nascimento de Moraes
Capa: Ulisses Lima
Editoração eletrônica: Rafael Porto
Editor: Rossyr Berny



Acho importante dizer que comecei a ler o livro antes de ler a sinopse (uma forma de jogo comigo mesma, mas enfim...) e dai que não imaginava que era um livro sobre vampiros. Mas é.

A capa de Ulisses Lima é incrivelmente simples e de bom gosto. Uma mancha de sangue pincelada no fundo branco tem um ar de mistério, de pouca sugestão, de “limpeza” onde existe algo fora do lugar. Achei realmente muito boa, e realmente nada me dizia a cerca do universo sombrio dos vampiros. Dai a surpresa que me deixou alguns minutos parada até absorver a informação.
Passado o susto, e lida a sinopse, voltei para a leitura. Agora estou aqui me perguntando como começo a resenha desse livro.
Existe uma discussão que tem se apresentando com certa frequência na ficção que é até que ponto um criador (autor, cineasta, roteirista, ator e etc) pode modificar um mito, e outro ponto seria o que é melhora e o que é degradação? No coletivo inconsciente podemos até achar que pensamos, de uma maneira bem geral, separada apenas por camadas de conhecimento, da mesma forma relativo às mudanças nos mitos. Mas isso não é verdade. Pois discussões a cerca disso parecem sempre ferver, tanto com os comentários mais afoitos e apaixonados, como os que tem mais indiferença do que preocupação com a “causa das criaturas sobrenaturais”. E vampiros estão nessa roda mais que nunca e cada vez mais. Arrancando paixão e ódio.
Então, eis que existe um livro chamado “Doença e Cura” - e ai, meu deus, essa resenha vai ficar grande – que bagunça tudo mais ainda.
Mas antes, vamos à forma.
O livro tem sete capítulos (grandes, diga-se de passagem) que são na verdade diferentes acontecimentos com vampiros que tiveram algum contato com uma certa “desgraça” que os vem abatendo no mundo todo, causando todo o tipo de problemas em seus corpos e habilidades.
Doença e Cura, até então não deixa claro que a doença é o mal que acomete os vampiros (as criaturas no topo das espécies no mundo até o momento) ou se esse “mal” que os agride na verdade é a cura para a doença de “ser um vampiro”. E parece que tudo depende do ponto de vista.
Para começar, existe então esse “mal” que acomete os vampiros e se alimenta do sangue deles para continuar a existir e para evoluir. Esse “mal” porém é dotado de inteligência – e é bastante egocêntrico diga-se de passagem – pois subjuga tanto os humanos quanto os próprios vampiros sempre que aparece, e nunca se “apresenta” da mesma forma apesar de ter formas de caçar os vampiros ou estudá-los que podem se repetir.
Este foi um ponto onde Fabian Balbinot, acabou por se complicar um pouco. Os personagens que são atacados pelo “mal” não se conhecem, e essa anomalia que é genética, sanguínea, física e muito mais, acaba repetindo suas qualidades, capacidades e buscas para esses diferentes personagens, o que se tornou repetitivo e um tanto cansativo. Pois aquilo que a tal “anomalia” diz a cada manifestação quase não soma para nós, leitores, faculdades realmente novas.
A trama não nos leva a nenhum lugar especifico na geográfica que conhecemos. Cidades grandes com esgotos enormes, campos, descampados, neve, castelo, tudo na época atual mas oferecendo características físicas apenas para estabelecermos os locais em nossa mente ao bel prazer do nosso conhecimento prévio e criatividade.
Os vampiros em si não inovam tanto. Me pareceu muito com o universo criado pelo jogo de RPG: “Vampiro a Máscara” - que cá entre nós é o mais completo, detalhado e bem criado até hoje – com famílias subdividas em domínios próprios, personalidades e atributos diferentes. Mas é parecido também com vários mitos como os de vampiros que se metamorfoseiam em animais, em névoa, em sombra e tudo mais. Onde muda? Existe um enfoque para dizer que os vampiros não são mortos vivos, na verdade são uma adaptação genética com incríveis vantagens e defeitos. E como todo capricho da natureza, ela cria algo para se sobressair a eles.
Agora, deixando os vampiros um pouco de lado.
O autor escreve de uma maneira forte, acida, direta, repleta de opinião que se impõe a partir da fala dos personagens. Ele fala de preconceito de classes, da globalização, do consumo desenfreado, da tecnologia que não passa de obsolescência programada na corrida pelo ouro das industrias, da corrida da própria vida humana sem sentido. Ele toca nos grandes vazios humanos, no lixo e na podridão das cidades, no desrespeito, na individualidade, na pobreza, nas ambições, no sadismo. Ele traz crianças acima da média, pais desfigurados em sua função de responsáveis e educadores, e muito mais. E ele nunca é intermediário ou apaziguador. Ele é incisivo e quase “ditador” em suas opiniões e criticas. Mas ai é que está: Pessoalmente eu gosto desse tipo de escrita e concordei com praticamente tudo que ele diz, mas quando se é muito sincero, as possibilidades de fazer “inimigos” também é grande. E há que se ter muito cuidado para levar a sério o que é sério, e compreender o que é sarcasmo. Este livro não é apenas um divertimento.
Existe também um ar muito forte de perspicácia biológica e comparativa no livro. Com explanações em genética, predadores de todos os tamanhos, e termos complicados das mais diversas áreas da ciência natural, mas não chega a dificultar a leitura. Tudo é muito bem explicado e justificado.
O terror. Um ingrediente que foi utilizado em vários níveis e estilos. Carnificina, terror psicológico, tortura, experiencias científicas, sadismo, por ai vai. Não é um livro de grandes perseguições ou de batalhas. Ele é mais centrado, mais pausado, entrecortado e não linear.
Nos capítulos 5 e 6, existe maior linearidade, gerando um correspondência e sequências com o personagem que vem encerrar a trama, e no capítulo sete, o desfecho de tudo e os apontamentos de um futuro.
A repetição já mencionada junto com o fato dos capítulos serem bem extensos cansa um pouco, e trava a leitura, o que parece ser a forma de melhor engolir a história e compreendê-la, ou seja, por partes interdependentes, do mesmo modo que a tal “anomalia” age no mundo.
Voltando à forma novamente. O autor escreve um capítulo em forma de roteiro de teatro, por um lado, o que até então não passa de um capricho e vontade do escritor, torna-se parte da trama de um modo bastante convincente. Mas ainda assim, esse enredo poderia ter sido melhor explanado como parte de um enredo, e não a peça toda, pois por si só ele não se sustenta devido a várias características que uma peça de teatro precisaria ter.
Apesar das letras pequenas e de não haver nenhuma novidade na diagramação, ela foi bem funcional, e não me causou incomodo. A revisão também parece estar de parabéns.
Para finalizar, o livro “Doença e Cura” possui o enredo mais diferente que já li sobre vampiros. Causa muito impacto, e é importante pela qualidade que possui. Não é um simples romance com vampiros de protagonistas ou coadjuvantes, é um história sobre o universo vampírico, e como o resto do mundo (e não apenas humanos) mas a própria existência, poderia lidar com eles.

A Morte do Cozinheiro

Tamanho não é sinônimo de qualidade. E Allan Pitz, sabe disso.


Autor: Allan Pitz
Editor responsável: Uziel de Jesus
Revisão: Alexandra Resende
Capa: Melissa Roncete
Diagramação e acabamento: Above Publicações
Editora: Above Publicações



 

Uma característica marcante neste pequeno livro é a sagacidade na escrita. A temática abordada segue a linha: vingança, dor de cotovelo, crise amorosa, paixão desmedida, uma quase psicose e telefonemas secretos para aguçar tudo. Porém, muitas vezes não é o que se faz e sim, como se faz.
A história é contada em primeira pessoa, onde o personagem principal seria o assassino do cozinheiro, como diz o título e também logo na primeira frase do livro. Portanto das três perguntas a serem respondidas em uma história: “O que vai acontecer?”, Quem irá fazer?”, e “Como irá ser feito”, as duas primeiras já são respondidas logo de cara e substituída por uma outra: “Porque?”.
Allan Pitz não parece ser o tipo de autor – ao menos nessa história – que se preocupa com fatos e personagens mirabolantes e inovadores,o que é parte responsável pela tal “sagacidade”.
A partir do momento em que ele coloca pessoas normais, em um ambiente cotidiano e vivendo coisas que todos vivem, seus apontamentos irônicos, cruéis e desenfreados afetam a todos. Uma experiência cheia de sarcasmo desmedido – como o próprio amor do protagonista pela namorada perdida – que revira as entranhas e as arranca para a visão analítica de uma pessoa totalmente perturbada, que é o protagonista.
Existem pouquíssimos personagens, e apenas o suficiente é dito de cada um deles quando surgem.
Um ponto positivo é que como a narrativa beira a insensatez trazida pela grandiosidade de um sentimento, os personagens ganham inúmeros adjetivos e característica físicas e emocionais para que o ato do assassinato seja justificado por ele, e acabam revelando personalidades exacerbadas e caricatas. O que tem tudo haver com a proposta.
A leitura é bastante leve e fluida, cheia de imagens e metáforas que nos fazem rir, (o riso catártico, de quando se reconhece a verdade do nosso dia a dia).
A diagramação buscou ousadia, com desenhos em vermelho de um tomate cortado ao meio em todas as páginas e no cabeçalho o nome do autor e do livro também em vermelho. No papel que é bem branco, acabou ficando um pouquinho poluído. Mas tem tudo haver com a descontração e loucuras presentes no livro.
A capa em si já é uma paródia do título que também não fica atras. Super bacana, ela está totalmente de acordo com o texto, sendo até uma extensão dele.
Muitas vezes as justificativas do personagem quase chegam a convencer a nos debandar para o lado dele e concordar com o seu ato, talvez não com a consumação dele, mas sim, como muitas vezes nossos pensamentos podem ser incrivelmente cruéis e insensato por nos agredirem de alguma forma.
Não reparei em nenhum erro de revisão. O que é muito bom. Se existir, é mínimo.
As referências presentes são poucas, de um ou outro lugar no Rio de Janeiro e um ou outro escritor. A crítica está presente o tempo todo. Seja em relação ao transporte público, aos interesses mundanos e pessoais, ao dinheiro, à mídia. Tudo em que ele poe a mão vira motivo de análise e “alfinetadas”, assim como ele mesmo.
Uma questão que me causou bastante incomodo foi a falta do desfecho, ou de um desfecho mais pontual e menos etéreo. Um dos pontos mais importantes que ligam toda a trama não é explicado. Ele deixa um ou outro tênue fio condutor para interpretações, mas que não foram suficientes para realmente sugerir uma ou várias possibilidades.
Isso se poderia ser explicado com o fato do enredo ser em primeira pessoa e o personagem principal não descobrir, ou se recusar a pensar sobre o assunto. Mas se existe realmente um motivo para o autor, ele poderia dar um jeitinho de tornar sua ideia um pouco mais precisa.
O livro como todo é muito bom. Vale a pena ser lido. Juntando o fato de ser curto, de não prometer na sinopse ou no título mais do que tem a oferecer, e por ser de uma inteligência absurda relativa à construção das frases e todo o contexto, acho pouco provável que não agrade alguém.
Fica a dica.
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