quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Estação Jugular – Uma estrada para Van Gogh


Uma estação, uma estrada, muitas perguntas. E tudo parece efêmero.


Autor: Allan Pitz
Capa e Diagramação: Guilherme Peres
Revisão e Textos da Capa: Kyanja Lee
Editora: Multifoco
Selo Desfecho Romances



Se, você é ateu, católico fervoroso, evangélico fanático ou algum religioso, que não goste de nenhuma obra, mesmo ficcional, que vá contra seus dogmas, não leia esse livro! Mas, Se você (independente de crenças ou não crença) tem uma mente aberta e gosta de ler sobre diferentes pontos de vista, vá em frente e pegue esse ônibus. Não se arrependerá.

O “estilo Allan Pitz”, como já citei neste blog, havia me marcado pela rapidez das narrativas, a adrenalina, e a seqüência criativa e fluida com que escreve, mas outra característica também presente nos livros “A Morte do Cozinheiro” e “Um Peixe de Calça Jeans” agora ficou muito mais evidente: Graciosidade. Não aquela graça forçada, cheia de retoques rebuscados ou excesso de delicadeza. É outra coisa. Uma construção de metáforas e pensamentos cheios de imagens que nos envolvem em seu raciocínio facilmente, mas mesmo assim, sem ser chapado, sem ser preto no branco nem muito colorido, mas incrivelmente fluída. Metáforas, constatações, reflexões, paisagens do consciente onde planam em constante troca o real e o onírico.
A narrativa é em primeira pessoa, e como elementos principais há o narrador (que começa entrando em um ônibus sabe-se lá para onde), o motorista do ônibus e um cenário inconstante e perturbador.
Uma característica importante é que o personagem/narrador se encontra, no começo da trama, tão perdido quanto o leitor que não tem idéia do que se desenrolara em seguida. Este homem então vai nos levar com ele às descobertas do porque de sua viagem repentina, junto às lembranças passadas e freqüentes epifanias. Ai está toda aquela nossa herança shakesperiana, (mas que também já existia nas tragédias gregas) do personagem que muda e evolui de acordo com seus pensamentos, que podem ter ajuda de outro personagem, da situação ou de sua própria consciência (nas tragédias gregas, normalmente era o coro que fazia esse papel). Aqui ele é sensível, mutável e extremamente comum, cidadão suburbano, carioca, com um sonho ou outro, ambicioso por necessidade, com um emprego etc, etc, etc. Do gênero "gente" mesmo.
O motorista, segundo personagem, ora bonachão, ora reservado, ora sábio, é tanto um condutor de idéias, como a própria reflexão irônica das nossas crenças e das verdades da sociedade - capitalista/globalizada/comunista exagerada/vazia/tecnológica - em que vivemos.
Mas fabuloso mesmo, é o cenário.
O artista pós-impressionista Vincent Willem van Gogh, parece ter sido o responsável com suas obras cheias de poesia e dor, para que Allan construísse lugares cheios de incerteza, magia, dolorosos ou encantadores. Mas tão rápido que parece um sopro no ouvido do começo de uma melodia. Ai fica o arrepio na nuca e a vontade de conhecer o resto. Sinto lhes informar, mas ele não conta o resto. Vai ficar por sua conta mesmo. Allan não é o tipo de autor que lhe da tudo mastigado, os questionamentos e parte da fantasia ficam implícitos no seu “será?”, e claro, por sua conta e risco também.
Além, há coadjuvantes e figurantes neste palco de descobertas, mas são tanto para contribuir com os respectivos cenários em que aparecem, sem nada de muito grandioso.
Agora, vamos falar da capa. Há pouco comecei a refletir sobre os tipos de capas que tem por ai. Tem as “intelectualóides” (no bom sentido), cheias de abstrações e que passam apenas uma experiência sensorial (quase subconsciente) do que seria o livro. Tem as descritivas, as surrealistas, as que a gente nem olha, e tem as capas revelo/não revelo. Acho que a de “Estação Jugular” está na última categoria.
Estação é um substantivo comum a todos. Jugular, então, é relativo às quatro veias principais que passam pelo pescoço. Mas na capa não há nenhuma estação, e nenhum pescoço. Logo, dois estopins nos chamam para a trama. Achei muito interrante a escolha em preto em branco, e as letras minúsculas são de equilíbrio e simplicidade. O fecho mais claro no centro da a idéia de estrada e caminho além da estrada sinuosa de fundo. Só achei que o nome do autor em vermelho ficou um pouco apagado. Mas no geral, está muito bem.
A diagramação interna não tem segredos ou inovações. Está funcional, nítida, tranqüila, em equilíbrio e cumpre seu papel. E “palmas” pela escolha do papel amarelado que ajuda a leitura e é de ótima qualidade.
Não notei erros de revisão. Pontos para a revisora também.
Agora, onde tudo se complica. Dois capítulos são extremamente espirituais (ou espiritualistas), me lembrou muito teorias kardecistas, mas também não se limita a isso. Pode ser apenas um ponto de vista do autor, pode ser apenas uma reflexão sobre o pós morte, ou pode ainda ser um misto de crenças. Mas longe de ser religioso ou preciosista. É mais para uma livre contastação, e para além de qualquer negativa ou empatia de pensamentos, é uma ficção. Dentro do que o autor lhe dá, você tira dela aquilo que desejar. 

Este livro, me vem com muito afeto, com um autógrafo cheirando a exclusividade (nem, tanto, tudo bem, mas quase) e me revelou muito mais desse autor. Sua destreza, dinamismo e  sinuosas curvas de subconcientes cheios de asas.

É uma leitura rápida e muito diferente. Recomendo.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

I wanna Rock - ROCK!


Saiu o resultado da mais recente antologia da Editora Estronho, até o momento, e fiquei muito feliz em ter entrado em mais esta, divindo espaço com tanta gente de talento e criatividade.
Sexo, Livros e Rock & Roll é mais um dos títulos super inovadores da editora e que nos faz queimar neurônios para corresponder à alucinante proposta.
Desta vez, os que tomaram o desafio para si tinham que se inspirar em uma música de rock’n’roll (ou similares, já que o organizador M.D. Amado não seria tão carrasco nesse quesito) e ainda abordar os temas "livros e sexo" de uma maneira leve e engraçada.
Acabou que, como a música, que nos leva para lugares inimagináveis, e como um verdadeiro show, que se ensaia mas não se prevê, segundo o organizador, os contos acabaram indo para um ou outro lado, e livre como é o espírito do rock – oh baby – a própria antologia tomou rumos diferentes na estrada.

Em detalhes, e com as palavras do Amado, você confere aqui..

Mas então, o que é este post?
Resolvi organizar o set list dos selecionados e assim, quem quiser pode curtir os sons que embalaram essa galera (e eu também) se preparando para as aventuras que virão.

Aumente o som e:
1, 2, 3 foi...


Alfer Medeiros - convidado -
Conto: "O homem de preto na Prisão Folsom"
Música: Folsom Prison Blues - Johnny Cash





Bruno R. R. Santos 
Conto: "Ruídosomia",
Música: Cuckoo for Caca - Faith no More



Carlos Henrique M. Abbud 
Conto: "O livro do amor"
Música: Rock and Roll - Led Zeppelin




Carolina Mancini
Conto: A pensão do lago"
Música: Detroit Rock City - Kiss, e Perfect Strangers - Deep Purple





Celly Borges e M. D. Amado 
Conto: "E só restou a lua"
Música: Bad Moon Rising - Creedence Clearwater Revival


Chico Pascoal
Conto: "Tres personae, una substantia"
Música: Metamorfose ambulante - Raul Seixas



Dimitry Uziel 
Conto: "Divina volúpia"
Música: When The Music´s Over e toda obra de The Doors



Fernanda Vilardi 
Conto: "Rebel Queen"
Música: I love Rock n' Roll - Joan Jett & The Blackhearts



Guilheme Sandi
Conto: "Lúcia se diviniza"
Música: Lucy in the Sky with Diamons - The Beatles



Hélio C. Brauner 
Conto: "Barata tonta",
Música: Uma barata chamada Kakfa - Inimigos do Rei




João Manuel S. Rogaciano - de Portuga.
Conto: "Um adorável lugar para pernoitar"
Música: Hotel California - Eagles



Paulo Fodra
Conto: "Asfalto quente"
Música: Highway to Hell - AC/DC


 

Ramon Bacelar 
Conto: "Baby... Light my fire"
Música:  Light my fire - The Doors



Rochett Tavares
Conto: "Os tempos estão mudando"
Música: The times they are a-Changin' - Bob Dylan




Valentina Silva Ferreira - de Portugal
Conto: "La Bamba, esposas e amantes"
Música:  La Bamba - Ritchie Valens



É isso ai, rockers, espero que tenham curtido.
Caso eu tenha confundido alguma música, só me falarem que corrijo.
And, Long Live Rock 'n' Roll!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um Peixe de Calça Jeans – E outras histórias para unir.

Histórias infantis contra a discriminação.

Autor: Allan Pitz
Editor-responsável: Zeca Martins
Projeto gráfico: Estúdio Criare
Controle editorial: Bianca Lucinda Gonçalves
Diagramação: Estúdio Criare
Capa: Zeca Martins
Revisão: Raquel Benchimol (coordenadora)
Editora: Livronovo



Idéias não passam de idéias, o que faz ela se tornar algo bom ou ruim, ou é a capacidade que ela tem de dialogar com o restante ao qual ela se destina, ou é claro, sua execução. Assim é em qualquer ramo, com qualquer tarefa. Vemos grandes possíveis inovações serem feitas com pressa que acabam por não serem efetivas em relação à proposta de quando foram concebidas. Outras idéias, porém, são criadas tão exaustivamente sozinhas, que viram um monólogo frio e que não chegam ao receptor da “tal idéia”, com efeito. Ou ainda, aquelas que os intermediários da idéia parecem não entendê-la em seu âmago ou simplesmente não se comprometem com a causa. De todas as maneiras, idéias são apenas idéias e precisam de ferramentas, preparação, pesquisa e muito trabalho para tornarem-se algo real e palpável, mesmo que palpável seja uma boa construção desta própria idéia em palavras e imagens.
Daí, fazer um livro que combata o bullying cativando de maneira sensorial, através do subconsciente e depois do consciente fazendo com que crianças aceitem suas diferenças, é apenas uma idéia.
O livro infantil em questão é um que, só pelo título, me deu uma incrível vontade de ler. E esperei bastante para sanar minha curiosidade.
De fato, ele é fortemente direcionado à educação (que pode ser intermediada não só por professores, como que pelos pais), tendo inclusive em seu início um esquema de perguntas e respostas de como utilizar o livro. E também, uma explicação do próprio autor que sofreu de bullying quando criança, que seria de onde surgiu a idéia de escrever este livro.
Porém, tantas explicações iniciais já modificam para quem o livro se direciona. Assim, fica claro que quem deve lê-lo são pais e professores, e não crianças.
Outro fator que distância o livro “objeto” das crianças é a diagramação. O mesmo peixe da capa é repetido em preto e branco antes de cada uma das cinco histórias, trazendo consigo os títulos em tons de cinza.
A diagramação também trabalhou com uns três tipos de fontes, que se alternam de uma história para outra. O que sinceramente eu não entendi.
O livro físico não condiz com o conteúdo dos textos que são leves, rápidos, e, ao que parece ser o melhor do estilo Allan Pitz.
Como exemplo, na parte de “perguntas e respostas”, depois de questionar como o livro ajudará a combater a violência e discriminação, vem escrito o seguinte:
“A tônica é simples: Ensinando quase subconscientemente, trazendo histórias ilustradas assimiláveis que conduzam a criança (...)”
Bom, não há ilustrações, há apenas a repetição da imagem da capa.
Mas, falando sobre a capa, ela é realmente linda. Representar o peixe de madeira com o toque do bolso em jeans e a leveza do fundo branco e as letras trabalhadas na palavra “Jeans” é de muito bom gosto e sutileza. O erro, realmente, foi repetir a imagem na parte interna.
Pode parecer dúbio, mas gosto da maneira que Allan Pitz escreve. Seu estilo direto e peculiar está presente nestes textos infantis com metáforas muito bonitas, exaltando diferenças como algo normal e até necessário, trazendo um individualismo que permite justamente entender a diferença de cada um, trazendo assim respeito e união. Sou já quase fã deste autor (preciso ler outros escritos) que me surpreendeu com os textos infantis.
Mas, como uma obra completa, deixou a desejar. Não pela capacidade do autor, mas sim pelo fato de um livro infantil (mesmo que seja para um adulto ler para a criança), ter deixado faltar o quesito encantamento. Faltou cuidado e capricho nas internas. Tranquilamente consigo imaginar mil possibilidades de trabalhar com imagens, até mesmo em preto e branco, que fariam mais jus ao talento do autor e não encareceriam o livro.
Acho que o autor deve repetir a temática, mas exigir mais tato na hora da publicação.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Apátrida

Um mundo dentro do meu mundo.


Autora: Ana Paula Bergamasco
Capa: Ricardo Diniz
Crédito foto da capa – frente – parte inferior: Krista Davis
Revisão de texto: Fernando Alves Ferreira
Produção Executiva: Todas as Falas Editora Ltda.
Impressão/Editoração: Brascard Edições de Postais Ltda. / Sérgio O. Rehder Jr.




O tema de Apátrida é recorrente, semelhante a muitos livros escritos pelo mundo e do mesmo modo parece ter em seu âmago o genes perfeito para se tornar um best seller visto que a Segunda Guerra Mundial, tema aqui abordado, sempre vende, seja em livros, filmes ou revistas. E não seria para menos. Eu mesma já perdi a conta das histórias que li (ou assisti) que se passem nessa época com toda sua hostilidade e genocídios que parecem superar a criatividade do mais incrível escritor de terror. De uma forma ou outra não me canso do tema, sou uma entre tantas pessoas que se debruçam facilmente por mais detalhes ou novas criações que nela se encaixem. Porém, o tema não é um mérito e sim, uma característica e nada mais. Das obras de ficção que envolvam este cenário, li coisas que me tocaram, outras que detestei, outras que não souberam utilizar a idéia ou a saturaram, e outras ainda geniais e criativas. E dentro desses critérios, onde Apátrida realmente se encaixaria? Não temo em dizer, está entre as mais belas e sublimes.
Este romance fica exatamente na linha tênue entre a técnica e a emoção, entre a ótima idéia e a execução bem feita. Razão e Emoção. Apólo e Dionísio.
As escolhas na maneira de narrar de Ana Paula foram perfeitas. A troca freqüente, mas separada por capítulos, de dois tempos da vida da personagem, a guerra e o pós guerra, tem uma organização sublime fazendo com que nada se perca em nossa linha de raciocínio.
Entre tudo isso, o romance em primeira pessoa, permite as reflexões do personagem/autor durante o desenvolvivemto do drama, como se a pessoa que narra sua vida estivesse diante de nós, embarcando hora ou outra em seus pensamentos, trazendo lembranças, constatações, reflexões, dúvidas, aflições, sentimentos de todos os tipos. É este conjunto que deixa o enredo muito vivo e humano.
A construção dos personagens é exemplar, e está no meu tipo favorito. Cheios de segredos, verdades, passado, fraquezas, ânsias, desejos e tudo que pode dar veracidade para eles.
O tom com que a personagem narrou as mazelas pelas quais passou tem um nível peculiar de equilíbrio e bom gosto. É extremamente forte, mas nem por isso exagerado ou cansativo. Ela não se repete, e nem desgasta o pesar. É pontual em todas as dores que revela, tornando a leitura leve e não cansativa. Dando-nos vontade de seguir velozmente no desenrolar dos fatos.
Dados momentos em que estive cansada, desejei que o livro fosse um filme para continuar naquela história mesmo quando o corpo já cansava de se manter. E devo dizer que toda a história facilmente invadiu meus sonhos. Um mundo que começava a fazer parte do meu.
Outro mérito dos personagens é que nenhum é perfeito, nem a protagonista. Diz a música “você se apaixonou pelos meus erros” e é exatamente ai que está a graça de um romance: conhecer pessoas. Não criaturas perfeitas, mas sim, fabulosamente humanas.
A revisão do livro esta exemplar. Não me lembro de erros de ortografia ou concordância. Mais pontos positivos para o livro.
Outro ponto de vista sobre o qual costumo falar é a capa, mas dessa vez é muito difícil refletir sobre ela. De fato a arte da mistura de fotografias é bem interessante. O destaque para o olho azul chorando sobre trilhos que parecem levar à um campo de concentração denota, é claro, tristeza, um tempo distante, literalmente um olhar sobre algo que já se foi. A parte mais interessante, acho que só se pode ver pessoalmente, pois o título está em “tinta” prateada, trazendo um ar de requinte para o livro. Porém, ela é bastante subjetiva e me remete ao pós morte. E não, isto não está lá. Ricardo Diniz fez uma proposta interessante com a sobreposição, com o fundo em cinza, mas tudo tem um ar muito triste, frio e distante o que contrastou com a sensação de aproximação e calor humano que aqueles personagens passam para o leitor mesmo através de uma vida difícil e de sofrimentos inúmeros.
Mas voltando ao romance. A autora foi muito corajosa por trazer pontos de vistas religiosos dentro do romance, testemunhas de Jeová, católicos, e claro, judeus, todos tratados com muito respeito, sem legitimar essa ou aquela crença, apenas o direito a se ter uma fé. E ainda não contente, ela traz de relance em um capítulo, a questão do enfrentamento nazista contra homossexuais, sempre sutil e pontual.
Apátrida, é um livro sobre o qual não se tem muito a revelar. Não há excessos, grandes caprichos, ou a invensão de um novo cenário mirabolante, ele é exatamente perfeito e possivel.
Há sim alguns encontros estranhamente improváveis, mas, de um certo modo, também plausível.
Este romance merece um lugar de destaque e tem grandes possibilidades de conquistar todo tipo de público e está entre os que mais recomendo.
Uma leitura apaixonante.
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