quinta-feira, 2 de junho de 2011

Garota Apaixonada Em Apuros

Autora: Carolina Estrella
Editora: Folio Criação
1ª Edição
Niterói – Rio de Janeiro 2010
Capa e projeto gráfico: Folio Criação

O Livro, “Garota Apaixonada Em Apuros”, é uma literatura do “universo teen” especificamente para garotas, o que já se vê pela capa com vários nuances de cor-de-rosa e de uma arte criativa que não utiliza modelo fotográfica e nem mesmo um desenho com características de cor de cabelo, olhos e etc., facilitando que muitas jovens possam se identificar com a personagem na hora de adquirir o livro.
A diagramação do livro nas páginas é interessante, as fontes não são as comumente usadas e possuem espaço entre as linhas e fontes grandes, o que torna a leitura rápida até mesmo para quem não costuma ler. Mais um ponto em relação ao público alvo.

 A história, segundo a própria Carolina, é baseada nas suas lembranças e registros em diários de seu primeiro amor, mas não é uma autobiografia. Apesar de alguns gostos ficarem intuitivamente parecidos. - Olhando a foto da autora na orelha do livro e comparando com a protagonista, podemos ver, por exemplo, um apreço pelo rosa e uma personalidade mais doce, o que pode ser comum, mas não é unânime entre as adolescentes.
A narrativa tem um que muito interessante. A autora, várias vezes, comenta as passagens de uma forma humorada que nos aproxima de suas experiências, dando a impressão de relatar os fatos exclusivamente para quem lê.
A história tem dificuldades, insegurança, amadurecimentos, final “feliz” e considerações finais que destroem a idéia de contos de fadas que a protagonista tanto anseia desde o começo, trazendo um ar mais realista, visto que seu “namoro”, o foco da narração, não são só flores.
Estrella, de fato, foi muito bem na criação do livro, sua linguagem é fácil, não exige esforços, e possui algumas mensagens para as garotas, passando por alguns fatos presentes em muitas vivências como separação dos pais, álcool na adolescência, entre outros. Ela também abre espaço para relatar as paixões das amigas da protagonista, e retorna rapidamente para a linha de desenvolvimento do romance principal, as desventuras de uma relação adolescente com seus autos e baixos, emoções e apertos.
Mas, preciso dizer que no livro nem tudo são flores também. Mas antes, é necessário deslocar-se além do que está no livro para o mundo em que suas possíveis leitoras podem viver.
Preocupou-me, logo de início, certos comentários da própria personagem que refletem alguns padrões de comportamento e quase os legitima, como por exemplo, na apresentação falando sobre como é bom se apaixonar, utiliza a frase: “Tudo se torna melhor, você emagrece porque não come mais e fica o dia inteiro pensando na pessoa amada.”. È muito problemático levantar a questão “emagrecer é bom” logo no início do livro, porque vivemos em uma sociedade que oprime principalmente pessoas do sexo feminino no intuito de formatá-las em padrões utópicos. Existe uma mídia selvagem que lucra com revistas que vendem regimes milagrosos e meios de comunicação em massa onde mulheres extremamente magras ou fisicamente moldadas aparecem como exemplo idealizado. Tudo isso leva a algo que é de nosso conhecimento: muitas adolescentes hoje praticam bulimia e sofrem de outros males justamente por não se encaixarem nesses padrões. Claro que a escritora acerta quando mostra o preconceito do tal amado da protagonista por ela ser mais nova e usar aparelho. Mas existem pesos muito diferentes ai nos quais precisamos pensar.
Outro fato é que quando um livro é tão direcionado, não mostra possibilidades de ser apreciado por qualquer outro público, a não ser uma mãe que queira entender um pouco como funciona a cabeça de sua filha adolescente de classe média. Pois a classe também é algo bem marcante e sobre a qual precisamos conversar.
Muitas vezes, levando-se em consideração que a história é rápida e o livro pequeno, as personagens fazem compras no shopping, valorizam roupas caras, freqüentam festas em casa com piscina, fazem viagens caras, e até um par de brincos de ouro entra nesse meio. Eu me senti “vendo” um seriado americano – dos fúteis – ou o programa “Malhação”. E o porquê estou sendo tão severa com isso? Porque esse tipo de realidade muitas vezes reflete um mundo que a grande maioria das garotas brasileiras não pode desfrutar, mas passam a acreditar que esse comportamento é o certo, se comparam e criam um pensamento avesso ao que realmente seria importante.
Não é um livro ruim e duvido que a autora tenha feito isso de propósito. Ela provavelmente só baseou-se na sua própria realidade quando garota, mas, a partir do momento em que você escolhe falar para esse público é imprescindível a consciência do que se fala e do como se fala. Eu acredito piamente que a literatura jovem precise se tornar mais responsável já que ela trata diretamente com um público que esta em formação e em constante dualidade.
Fica a dica pra autora também, talvez se ela puder expandir seu campo de visão para outras realidades, que não a sua própria, ela possa vir a fazer um excelente trabalho.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Insanas... elas matam!

Várias autoras.
Copyright 2011 – Editora Estronho
Fotografias (capa e internas): Andrey Kisele
Arte final da capa e diagramação: M. D. Amado.
Revisão: Celly Borges.

Falar sobre um livro da recém nascida Editora Estronho, é uma tarefa árdua e deliciosa.
Mas antes, o projeto



Segundo o próprio organizador, a vontade de criar o “Insanas” - que consiste em reunir autoras capazes de escrever sobre temas mais dominados por homens (ou nem tanto, e isso eu explico em seguida) e que, principalmente, não se limitam a escrever poemas de amor, checklist, dicas de maquiagem e moda (aff), ou padrões de comportamento e dicas de etiquetas - nasceu justamente depois de se deparar com tantos livros nesses formatos e comparar com a capacidade de algumas autoras que conhecia e aquelas que o mundo conhece como, por exemplo, Anne Rice, Mary Schelley, a própria Agatha Cristhie com suas mortes fabulosas, e as nossas Giulia Moon, e Georgette Silen. Assim, o projeto colocou-se a andar.
A chamada animou muitas escritoras novas e não tão novas, a se debruçar sobre o “convite” muito sugestivo segundo o próprio nome. Onde, “... elas matam” como é dito, não são as personagens insanas, e sim as escritoras, que trouxeram à tona crueldade, sexo, masoquismo, mortes, ira, demônios, bruxas, e até personagens masculinos criados a partir de mentes e mãos femininas.
Foi com grande honra que fui convidada, ao lado de Celly Borges e Suzy M. Hekamiah, para embarcar nessa louca aventura.
O projeto então virou livro.
As páginas dos livros são daquelas folhas mais grossas e levemente amareladas, que não cansam a visão e dão um prazer visual durante a leitura e tátil ao folheá-lo.
A capa escura, sombria, traz uma mulher que realmente faz jus ao título sobre ela, a orelha, a parte interna da capa e da contra capa, e as folhas que separam os contos das autoras ganharam outras imagens dessa mesma “personagem”, pois as cenas, a vestimenta, os locais e as poses, são tão fortes, tão loucas, tão sombrias e ao mesmo tempo tão femininas, que se tornaram mais que ilustrações, essas fotos na mão do diagramador tornaram-se uma nova história. Deslumbrante. Por outro lado, após cada uma dessa imagem, onde consta a mini-biografia de cada autora e seu conto, há lindas flores, também sombrias. É a aura feminina se revelando. E a diagramação não para por ai. Nomes dos contos de ponta cabeça e riscados com fúria durante as páginas. São surpresas e detalhes que não acabam, podendo-se ficar horas só namorando o livro.
Ao conteúdo literário.
O prefácio é de Ana Cristina Rodrigues, que nos avisa – avisa principalmente aos homens – sobre a não existência de gentilezas ou fragilidade nas linhas que seguem. Ela fala sobre a força, sobre a febre, sobre os desejos audaciosos, fala sobre este lado feminino que domina, não com bons modos.
Iniciamos então a loucura dessas mentes com o conto de Sandra Franzoso, “O bem e o mal”. Onde ambos são calculados com frieza por uma personagem que experimenta os dois lados, bondade e maldade, em doses de varias proporções. A inteligencia da história é crível, uma sanidade tão pérfida que beira a completa loucura. Ambiguidade? Totalmente plausível se você ler essa história.
Dai vem a cartada de mestre de Bruna Caroline. “Tinta vermelho sangue”, conta a história de uma escritora, desde sua infância, quando desenvolve um gosto levemente bizarro e aparentemente inofensivo, que é claro eu não vou contar... Mas não é só uma história de obsessão, ela é cruel, fria, metódica. Posso até dizer que houve pesquisa para tornar totalmente provável a realização do seu feito. Um conto quase real.
A última oração”, é uma viagem para o passado e para um dos lugares mais sombrios que talvez a humanidade tenha criado. Tatiana Ruiz, nos carrega inesperadamente para um pesadelo em vida que acomete a personagem, nos fazendo sofrer com ela, ignorando o mal como ela, com mil perguntas que não são respondidas, e seria melhor que não tivessem sido. A autora foi muito talentosa. As cenas e cenários, foram muito bem construídos de modo a nos surpreender e seu final merece aplausos.
Georgette Silen cria uma historia direto “Do inferno”, com o primeiro personagem masculino na coletânea. A história em primeira pessoa é mais que um relato, é uma sequência de ideias e flashes de uma mente perturbada, maniaca, totalmente insana e cruel. Ela traz uma versão para um dos maiores personagens reais que aterrorisaram mulheres e uma sociedade inteira. Arrepiante, de dar nojo e ânsia. Onde tanto ele quanto quem lê sente-se enclausurado na sua demência. Quem é o personagem? Anote ai na sua lista do “essa, a Carol da resenha, também não contou”.
Alma Kazur, escreveu duas histórias em uma. Um tempo distante de um Brasil que ainda possuía escravos, uma família europeia de hábitos terríveis, uma terra amaldiçoada, um fotógrafo. Uma receita incrível e cheia de mistério e cenas das mais perversas. Incrivelmente orquestrada e sinistra. Não há muitos outros adjetivos, apenas que "A Fazenda" me deu pesadelos, e dos mais horríveis!
Aparece a primeira convidada. Celly Borges, nos traz em “Vítimas”, a angústia de um pesadelo. Imagens que não se explicam, intervenção entre realidade e imaginação. Aparições, revelações. Uma casa monstruosa com paredes velhas e cheias de sangue. A energia que consiste no conto é a de um filme de horror, dos mais belos e sublimes. Com sangue e morte, mas com muito mais suspense e medo. Portas trancadas, mortos vivos. Lobo em pele de cordeiro. Um conto que exige uma leitura de um único folego, pois ela prende e obriga que tenha sua extrema atenção.
Depois, “Anita”, de minha autoria (Carolina Mancini), é uma história que tentei trazer doses de crueldade, sexo e mistério. Se eu consegui? Bom, não sou eu que vou dizer.
Em seguida, Natália Couto Azevedo, foi de uma criatividade sem igual. “O relógio perfeito”, conta a história de uma estudante de medicina no fim do século XIX que é capaz de qualquer coisa para criar seu maior feito e provar sua teoria. Posso até ousar dizer que no momento de seu estudo me fez lembrar o doutor Frankenstein. Uma grande sacada da autora, é que o conto é curto. Ele dura o suficiente para contar a história, sem distrações, sem pormenores. O que torna o acontecimento uma reprodução exata da maneira obcecada de pensar da personagem.
Bianca” de Gisele G. Garcia, traz uma criatura que por pouco achei que não aparecia no livro. O exemplo perfeito de sedução e crueldade. Mas não é essa criatura que faz do conto algo insano, e sim o que Bianca, faz. É a historia de uma vingança lenta, torturante, excitante, onde seu objeto de ódio, sofre mergulhado em um pesadelo. Pesadelo? Ela fala sobre atos e conseqüências. Sobre impunidade, sobre superioridade. A criatura vou deixar pra vocês adivinharem.
Desagravo” de Laila Ribeiro, não traz loucura só na personagem, ela cria mundos paralelos, uma guerra entre dois clãs da magia, disputa de poder e uma moça bem no meio de toda essa confusão, com uma mente tão confusa quanto. Porém, mesmo com viagens através de desmaterialização e materialização, as atitudes são incrivelmente levadas por amor e ódio como humanos em qualquer época. A ambientação causa um certo estranhamento que nos mantém atentos perante o desenrolar das decisões da moça e sua ira.
E ai, tudo muda, mas tudo muda realmente. Roberta Nunes destrói o nosso modo de vida patriarcal e com ele todos os preceitos de moral e certo e errado que conhecemos, ela derruba o cristianismo, tira de Eva a responsabilidade pelo “Pecado original”, muda a figura de nosso Deus para Deusa, e o resultado é incrível. Crueldade extrema. Uma constante perseguição aos homens, inúmeras mortes, abusos de força (sim, de força pelas mulheres). Tudo fica de ponta cabeça e caótico, nos fazendo realmente pensar nas atrocidades e probabilidades existentes na história.
 Quer uma torrada?” é o convite de Débora Moraes. Eu me senti dentro de uma grande tpm, onde toda nossa lógica vai por água a baixo e viramos uma tempestade desenfreada movida por instinto e prazer. Mas não o prazer convencional. Nessa história maluca, que eu duvido que alguma mulher não se identifique ao menos um pouco, atitudes perversas, inesperadas ou simplesmente bizarras, são contadas com a mesma naturalidade que, certa manhã, resolvemos comer mais uma torrada.
Suzy M. Hekamiah, também convidada, traz uma história com cenas antigas, mistérios, carroças e carruagens. É a outra autora, onde o mal provém de um personagem masculino. As cenas mais uma vez são seu forte. Em "Flor de lis", peles são arrancadas, sombras ganham vida, e a criatura das trevas reina. Um universo onde belo, soturno e grotesco se confundem, se misturam e se tornam uma coisa só. Incrível.
Alícia Azevedo criou quase um jogo, um jogo conosco. Contagem de tempo desconexa, viagem pelo oriente, cenas que não se explicam e uma personagem que faz de seu talento para matar e sua futilidade seu principal passatempo. “Memórias” surge no oriente, vai para a levianidade do principal bordel na França, depois para a Inglaterra e nos deixa com a sensação de queixo caído e um grande ponto de interrogação que vai fazer você ter vontade de reler só pra ver se ela não te passa a perna de novo.
Para encerrar, Laris Neal, vai fazer suas pernas tremerem, seu ventre queimar e sua boca salivar, que é o que acontece com suas personagens em “Amor masoquista”. Uma história de erotismo, sexo e pornografia, muito bem contada. É escrita como a explosão de um orgasmo, que deixa sem folego e sem acreditar no que acaba de ver. Não é puritana, e também não é vulgar. É doentia sim, mas que amor não é um pouco doente? Nesse caso, é extremo.
Insanas... elas matam!” é um livro escrito por mãos femininas para olhares dos dois sexos. É um presente divino que essas escritoras (e fico feliz por me incluir nessa) podem oferecer para a apreciação e viagem. Nenhum pouco cansativo, depois de cada conto, a vontade de ler o próximo é sempre maior. Um trabalho de uma peculiaridade para marcar.

Onde adquirir?

Se antes, ainda quiser dar uma olhadinha, o site da editora disponibiliza um arquivo em PDF com um conto e a diagramação final:

Se quiser conhecer outros trabalhos dessas insanas, no site da Editora você encontra um resumo e suas participações em outros livros.
Lista de autores


E que seus pesadelos mais insanos, se tornem realidade.

Nota:
1 - Todas as imagens utilizadas estão no site da editora e correspondem a marcador e botons que são enviados na compra do livro.
 
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