Estação Jugular – Uma estrada para Van Gogh


Uma estação, uma estrada, muitas perguntas. E tudo parece efêmero.


Autor: Allan Pitz
Capa e Diagramação: Guilherme Peres
Revisão e Textos da Capa: Kyanja Lee
Editora: Multifoco
Selo Desfecho Romances



Se, você é ateu, católico fervoroso, evangélico fanático ou algum religioso, que não goste de nenhuma obra, mesmo ficcional, que vá contra seus dogmas, não leia esse livro! Mas, Se você (independente de crenças ou não crença) tem uma mente aberta e gosta de ler sobre diferentes pontos de vista, vá em frente e pegue esse ônibus. Não se arrependerá.

O “estilo Allan Pitz”, como já citei neste blog, havia me marcado pela rapidez das narrativas, a adrenalina, e a seqüência criativa e fluida com que escreve, mas outra característica também presente nos livros “A Morte do Cozinheiro” e “Um Peixe de Calça Jeans” agora ficou muito mais evidente: Graciosidade. Não aquela graça forçada, cheia de retoques rebuscados ou excesso de delicadeza. É outra coisa. Uma construção de metáforas e pensamentos cheios de imagens que nos envolvem em seu raciocínio facilmente, mas mesmo assim, sem ser chapado, sem ser preto no branco nem muito colorido, mas incrivelmente fluída. Metáforas, constatações, reflexões, paisagens do consciente onde planam em constante troca o real e o onírico.
A narrativa é em primeira pessoa, e como elementos principais há o narrador (que começa entrando em um ônibus sabe-se lá para onde), o motorista do ônibus e um cenário inconstante e perturbador.
Uma característica importante é que o personagem/narrador se encontra, no começo da trama, tão perdido quanto o leitor que não tem idéia do que se desenrolara em seguida. Este homem então vai nos levar com ele às descobertas do porque de sua viagem repentina, junto às lembranças passadas e freqüentes epifanias. Ai está toda aquela nossa herança shakesperiana, (mas que também já existia nas tragédias gregas) do personagem que muda e evolui de acordo com seus pensamentos, que podem ter ajuda de outro personagem, da situação ou de sua própria consciência (nas tragédias gregas, normalmente era o coro que fazia esse papel). Aqui ele é sensível, mutável e extremamente comum, cidadão suburbano, carioca, com um sonho ou outro, ambicioso por necessidade, com um emprego etc, etc, etc. Do gênero "gente" mesmo.
O motorista, segundo personagem, ora bonachão, ora reservado, ora sábio, é tanto um condutor de idéias, como a própria reflexão irônica das nossas crenças e das verdades da sociedade - capitalista/globalizada/comunista exagerada/vazia/tecnológica - em que vivemos.
Mas fabuloso mesmo, é o cenário.
O artista pós-impressionista Vincent Willem van Gogh, parece ter sido o responsável com suas obras cheias de poesia e dor, para que Allan construísse lugares cheios de incerteza, magia, dolorosos ou encantadores. Mas tão rápido que parece um sopro no ouvido do começo de uma melodia. Ai fica o arrepio na nuca e a vontade de conhecer o resto. Sinto lhes informar, mas ele não conta o resto. Vai ficar por sua conta mesmo. Allan não é o tipo de autor que lhe da tudo mastigado, os questionamentos e parte da fantasia ficam implícitos no seu “será?”, e claro, por sua conta e risco também.
Além, há coadjuvantes e figurantes neste palco de descobertas, mas são tanto para contribuir com os respectivos cenários em que aparecem, sem nada de muito grandioso.
Agora, vamos falar da capa. Há pouco comecei a refletir sobre os tipos de capas que tem por ai. Tem as “intelectualóides” (no bom sentido), cheias de abstrações e que passam apenas uma experiência sensorial (quase subconsciente) do que seria o livro. Tem as descritivas, as surrealistas, as que a gente nem olha, e tem as capas revelo/não revelo. Acho que a de “Estação Jugular” está na última categoria.
Estação é um substantivo comum a todos. Jugular, então, é relativo às quatro veias principais que passam pelo pescoço. Mas na capa não há nenhuma estação, e nenhum pescoço. Logo, dois estopins nos chamam para a trama. Achei muito interrante a escolha em preto em branco, e as letras minúsculas são de equilíbrio e simplicidade. O fecho mais claro no centro da a idéia de estrada e caminho além da estrada sinuosa de fundo. Só achei que o nome do autor em vermelho ficou um pouco apagado. Mas no geral, está muito bem.
A diagramação interna não tem segredos ou inovações. Está funcional, nítida, tranqüila, em equilíbrio e cumpre seu papel. E “palmas” pela escolha do papel amarelado que ajuda a leitura e é de ótima qualidade.
Não notei erros de revisão. Pontos para a revisora também.
Agora, onde tudo se complica. Dois capítulos são extremamente espirituais (ou espiritualistas), me lembrou muito teorias kardecistas, mas também não se limita a isso. Pode ser apenas um ponto de vista do autor, pode ser apenas uma reflexão sobre o pós morte, ou pode ainda ser um misto de crenças. Mas longe de ser religioso ou preciosista. É mais para uma livre contastação, e para além de qualquer negativa ou empatia de pensamentos, é uma ficção. Dentro do que o autor lhe dá, você tira dela aquilo que desejar. 

Este livro, me vem com muito afeto, com um autógrafo cheirando a exclusividade (nem, tanto, tudo bem, mas quase) e me revelou muito mais desse autor. Sua destreza, dinamismo e  sinuosas curvas de subconcientes cheios de asas.

É uma leitura rápida e muito diferente. Recomendo.


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Entrevista na Editora Coerência