quarta-feira, 13 de julho de 2011

Cursed City



Editora Estronho 2011
Capa e Diagramação: M. D. Amado
Revisão: Celly Borges
Ilustração do Prefácio: Anderson Siqueira
Ilustrações Internas: Public Domain Photoshop Brushes
Prefácio: Adriano Siqueira
Vários autores.
Impresso pela IBEP Digital



Falar sobre Cursed não é uma tarefa fácil, porém é muito divertida e emocionante. Sei que pode parecer estranho ou inapropriado resenhar um livro do qual se faz parte, mas quando se trata de uma antologia em que os autores selecionados não mantêm nenhum tipo de contato ou troca de opiniões relativas aos textos, a surpresa e a tomada de ciência da obra completa é muito parecida com a apreciação de qualquer outra obra. E justamente por esses motivos que acho possível falar sobre o livro além de outro fator. Quando você pensa em um conto dentro de uma proposta com um cenário tão rico e detalhado como o desta antologia, é inevitável arregalar os olhos - e até mesmo deixar o queixo cair - diante tantas idéias inesperadas, criativas e diferentes.
Ao todo são vinte autores, isso quer dizer que - com muita audácia e cara de pau hehe - posso falar sobre o trabalho desses parceiros que me emocionaram, divertiram e meteram algumas pulgas atrás da minha orelha ao pensar de onde vieram suas inspirações amaldiçoadas.

A qualidade gráfica dos livros da estronho como sempre é incrível, e dessa vez não foi diferente. Um trabalho que só se faz com muito amor e dedicação - não importa quanto essa frase seja piegas. O cuidado vem desde a proposta com a descrição da cidade tanto no site da editora, para que os autores se baseassem na hora de escrever suas "desventuras" e também no próprio livro para que o leitor saiba em que pedaço do inferno está pisando.
A capa e arte interna do livro mesclam elementos do velho oeste com o horror. A graça é tanta que o livro tem um furo de bala. O papel é de ótima qualidade, e todas as páginas são tematizadas. Assim como marcadores e botons que você adquiri ao comprar o livro. E o que mais se pode falar sobre a diagramação? Nada? Muito pelo contrário. Antes de cada conto há um resuminho sobre cada autor e uma foto sua em um cartaz de procurado! Um mimo tanto para o leitor como para os selecionados.
O prefácio está por conta de Adriano Siqueira. E pra quem não sabe muito sobre western é ainda mais indispensável. Ele trás referências importantes do gênero na televisão, cinema e quadrinhos para que, no caso de ser um fã do estilo já ir se identificando, e se não conhecer muita coisa, ter uma trilha amarelada de poeira velha para se guiar caso resolva buscar mais do gênero.
Cursed é um livro para apreciadores de faroeste, de horror, e de aventuras fantásticas.
As ilustrações, apesar de serem banhadas no horror, tem uma característica que beira a ironia. O riso leviano também é reflexo do desespero não é? São muito bem trabalhadas e fazem grande par com a diagramação.

Alfer Medeiros abre as portas para Golden Valey - nome original da, então, Cursed City. Seu conto "O gigante, a curandeira e a lutadora de kung-fu" é uma historia em que permanece a ação e o mistério. Tudo ocorre muito bem ambientado em uma noite na cidade, vivida por gente de fora que sabe muito bem o que vieram buscar.

"Oricvolver" de Ghad Arddhu, não poupou no inusitado. Ele nos leva para a ferrovia abandonada e depois para a noite em Cursed. Uma máquina fantástica, um belo plano, um diabrete - que eu adorei, diga-se de passagem - e o terror realmente "quase" indescritível e fantástico que geram esse outro pedaço da loucura que é essa cidade, são as trilhas de seu conto. Muito ousado.

Depois, "Numero 37" de minha autoria, pode-se dizer que trás um pistoleiro diferente e alguns demônios. Que ao menos eu me diverti criando. Do resto não posso falar porque ai não seria resenha, seria propaganda (rss).

"Por um punhado de almas" tem o grande forte na descrição da história e do cenário. Cirilo S. Lemos faz uma submersão detalhada na vida empoeirada que seu personagem se depara e dos antagonistas, os humanos e os nem tanto. Um grande desenrolar do horror e um passeio pela igreja tomada por algo demoníaco são igualmente trabalhados com um ótimo fim.

André Bozzetto Jr. é o convidado da antologia e em "Balada de um coyote" trás, sem dúvida, o personagem mais engraçado do livro. Divertido e rápido, se passa nos arredores da cidade e não tem nada muito horripilante. Nesse caso a fantasia e o inusitado estão mais fortes que o medo. Está aí um diferencial.

"Just like Jesse James" é o mais nojento na antologia. E isso é muito bom! Alliah cavou nas feridas do velho oeste com a falta de higiene e desleixo. Além de trazer elementos já conhecidos dos amantes do gênero, a mistura de ficção cientifica com o próprio western, ela nos envolve na podridão e no fatídico.

Personagens distorcidos dos estereótipos são sempre bem vindos, e o protagonista criado por Georgette Silen é isso. Todo o cenário sujo de cheiro podre de Cursed também está nesse conto, ao lado de índios nada convencionais. Interesses corruptos dividem lugar com a aventura e mistério existentes no conto "A mão esquerda da morte" que fortalece a cruel verdade de Cursed City.

Verônica Freitas tem um grande feito em "Deixe-me entrar". Tanto a personagem e os cenários foram muito bem construídos, onde começo, meio e fim da trama foram criados com dedicação. Uma história onde o horror está em todas as linhas, causado tanto por vandalismos humanos quanto interesses das criaturas sobrenaturais e o fim da inocência.

Tânia Souza com "Demônios da escuridão" cria uma aventura emocionante. Uma protagonista em busca de vingança e uma maldição muito palpável e surreal sobre a cidade - um tanto ambíguo, mas assim que é! Ela lapidou as situações com veracidade e tudo é muito descritivo e visual. Onde o passado são as raízes de um presente caótico e injusto.

Romeu Martins caprichou na referência histórica e no modo de falar dos personagens. Tem uma cena de mais tensão, mas o conto ficou firme no dialogo. Tem quase a característica de um capítulo ou introdução de uma história maior. Mesmo assim, cheio de surpresas.

M.D. Amado (organizador) se junta à turma de bandidos com o conto "Nem sempre a fé te salvara" que trás um personagem carismático - para os padrões do velho oeste - e uma história com um começo saudosista seguido por intrigas e interesseiros, além de uma viajem no mundo dos mortos e grande envolvimento com as características da cidade. (O mesmo personagem em outra aventura você encontra no livro “Sagas 2 – Estranho Oeste” da Editora Argonautas).

"Sally" é um conto muito sexual e forte. Valentina Silva Ferreira não poupou na descrição e no psicológico da sua protagonista. O ruim é que a história acaba de repente. Não da pra saber se foi proposital ou não, o que de fato não chega a prejudicar o trabalho da moça que foi ousado e cativante.

Jota Marques fez algo muito criativo, desde a escolha do personagem principal que é um menino, o que vemos pelo título "As desventuras do pequeno Roy", até a forma de abordar o conto do ponto de vista do garoto. Mas também é a história mais sensível e triste. Existe uma leveza que aos poucos é tomada pela calamidade e tragédia. (Vale ressaltar que nesse conto especificamente houve alguns probleminhas de revisão, algumas palavras parecem sobrar nas frases.)

"Aquele que vendia vidas", da autoria de Ana Cristina Rodrigues, traz o mal vindo de fora da cidade, como se cursed não só produzisse o horror, mas como se atraísse para seu solo o que há de pior fora de seus limites. Existe certo quê de justiça nas revelações e desfecho, onde nada parece acontecer por acaso.

Agora temos outra história com toques irônicos. Chico Pascoal parece ter firmado sua trama em um humor negro muito bom, além de escrever com talento. Toda palavra parece ter sido pensada lapidando os parágrafos. Surpresas não faltam em "Duas lendas" com seus acontecimentos inesperados e um ar incrível de decadência.

Ainda na leva da comicidade o conto de Davi M. Gonzales traz sua cara já no título. "Ainda dói?" começa com um diálogo inusitado e a aventura é contada por um personagem ao outro. Também se influenciou pela mistura de velho oeste e ficção cientifica. Deve ser a história mais inusitada e, ao mesmo tempo, com um começo razoavelmente simples. Uma grande idéia sem sombra de dúvida.

E parece que as aventuras engraçadas se firmaram nessa parte quase final do livro. Yvis Tomazini trás personagens bem trabalhados e super vivos na sua trama "Só o dinheiro dos mortos", mesmo onde os nomes sugerem personagens tipo. Ninguém em nenhum momento é o que parece ser e quando chegamos ao fim nos sentimos meio bobos se fazendo a pergunta "Como eu não percebi isso?". E tambem não falta horror vindo de um modo bem inusitado.

"O fantasma de Franklin Stuart" trás de volta a seriedade e o peso de Cursed City. Uma trama incrível em que as verdades se revelam das maneiras mais cruéis. Lucas Rocha criou motivos concretos para tudo que ocorre. Crueldade e sangue sublinham os acontecimentos dessa história totalmente nos padrões da antologia.

Zenon mantêm a densidade nas páginas. O caos de "Descanse em paz" esta tanto na cidade amaldiçoada como na mente do protagonista. Ele traz uma visão muito bem pensada da morte e não mediu o tamanho das surpresas no desfecho. Um conto bem construído e envolvente. Adorei o nome do personagem principal também.

E agora tudo fica mais difícil porque Marcel Breton foi incrivelmente ousado. Ele parte do ponto de vista de um dos personagens principais de cursed e faz com outros o inimaginável. Seu conto "Sombras" fala do lado de fora sobre o dentro, brincando com mergulhar e se distanciar da cidade. O horror esta lá muito bem colocado, inclusive ele trabalha com os parâmetros - ou seriam paradigmas? - de micro e macro onde tudo está inteiramente ligado. E foi muito bem escolhido pra fechar a antologia.

"Cursed City - Onde a alma não tem valor" alem de inovar na proposta com um gênero não comum na literatura fantástica nacional, nos traz um nível muito bom nas histórias selecionadas. Acho impossível que qualquer um que leia não aprecie e se envolva com pelo menos um conto pois apesar de se passarem no mesmo cenário e terem características recorrentes, eles possuem uma grande criatividade e peculiaridade devido às marcas e gêneros de cada autor. Fora que a plasticidade do livro o torna um exemplar da literatura pra se ter em casa.
É claro que para leitores não acostumados a livros de contos, fique um pouco cansativo, afinal gosto é gosto. Mas o bom trabalho que é esse livro merece a leitura até desse público que não sairá decepcionado.
Mais uma vez parabéns a Estronho e aos autores que embarcaram nesse projeto.

A editora disponibiliza no site um arquivo em PDF com dois contos como forma de degustação degustação.

Caso queira saber mais sobre os autores e seus outros projetos acesse a lista de autores e prefaciadores da Estronho.

Onde comprar? Acesse a loja on-line da editora e ainda descubra como acumular pontos para trocar por outros livros.

E longa vida a Literatura Fantástica Nacional!

4 comentários:

  1. Oi Carolina.
    Excelente resenha :) Quanto ao meu conto: foi de propósito o final aparecer tão rápido. Achei que se continuasse a relatar a vida de Sally, a história poderia ficar repetitiva. A mocinha continua lá, em Cursed City, a receber homens e... bom, você sabe ;)
    Um beijo,
    Valentina Silva Ferreira.

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  2. Oi Carolina, adorei a resenha,de fato, quando escrevemos um conto para uma seleção como esta, ler os outros contos, descobrir universos e possibilidades narrativas é muito legal. Ah, e muito obrigada pelo comentário sobre meu conto, que bom que gostou.

    Ainda não terminei de ler, mas já sei que vou sentir saudade da atmosfera de Cursed City.

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  3. Oi Valentina, obrigada por gostar da resenha, mas o livro ajuda muito. rs
    A Sally é uma personagem e tanto.

    Ah, fui conferir seu livro que logo a Estronho lançará. Estou curiosa.

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  4. Tânia, obrigada também.
    Pior que essa saudade amaldiçoada cria um encanto sobre a gente. hehe

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