Resenha Cyber Brasiliana

Sem precedentes. Incrível. Chocante. Perfeito.

Autor Richard Diegues
Editor: Gianpaolo Celli
Revisão: Fabrícia Carpinelli e Romaniv Chicaroni
Projeto Gráfico:Verena Peres
Capa: Phil e Ico
Diagramação: Richard Diegues
Tarja Editorial.





Já faz um tempo que li esse livro, mas não fiz a resenha pois me sentia inapta por dois motivos. Primeiro pela complexidade do gênero “ficção cientifica” com a qual não tenho a menor familiaridade, e em segundo lugar, pelo estado de perplexidade e embriagues que fiquei após a leitura.
Richard Diegues - que além de escritor é editor e consultor tecnológico - nos diz na apresentação do livro sobre seu intuito de escrever um romance de Sci-Fi em um cenário cyberpunk que qualquer pessoa não familiarizada com as nomenclaturas tecnológicas pudesse se aventurar na história sem problemas e sem prejudicar a fluidez da leitura. O autor realmente consegue fazer isso. As terminologias mais complicadas vem e vão sem problemas, e conforme seus funcionamentos são descritos elas se tornam mais próximas e palpáveis.
Particularmente minha dificuldade (que foi apenas inicial) foi com o cenário em si, pois a estética futurista sempre me causou estranhamento e distanciamento. Mas aceitei a leitura aberta, e de bom grado me surpreendi com a capacidades do autor e as qualidades desta obra que é guiada pela humanidade e profundidade dos personagens, a riqueza dos cenários, a inteligencia nas divisões politicas e culturais desse mundo distópico e todos os outros ingredientes de um bom livro de ficção como perseguição, batalhas, romance, corrupção, vilões egoístas e poderosos, e seres humanos levados ao extremo de seus sentimentos mais variados e caóticos.
Agora, vamos ser mais específicos.
A capa. O personagem principal reina entre luz e sombra, com um óculos que lhe cobre o rosto, e na mão uma arma de fogo. A imagem parece ter sido construída com preto, branco (logo tons de cinza) e azul e verde. Tudo isso traz um resfriamento, combinando bem com a aura tecnológica e complexa do livro. Eu gostei muito da arte. Não parece uma obra que traria para si qualquer público, mas desperta curiosidade e ilustra bem o livro sem revelar detalhes.
O cenário. Podemos dividi-los em dois âmbitos que se somam. O primeiro é o político onde diferentes alianças e poderes assumem novos ares e estruturas, onde abaixo da linha do equador tudo parece ir muito bem economicamente, e do outro lado, tudo está incrivelmente caótico e o poder é mantido pela força. O segundo é a tecnologia do Hipermundo, um lugar ficcional (como a internet), mas onde realmente o mundo se baseia para sobreviver. Digamos que: é um ambiente onde todo o mundo se conecta com muita frequência e desde dados bancários até relações de amizade são feitas e firmadas. Mas ambas as realidades que se somam nos chegam de uma maneira bastante natural, apesar do estranhamento que ai possa haver, logo tudo é tão perfeitamente condicionado que a história caminha como se estive acontecendo na sua cidade. Esse universo tem seus primórdios, mas como é falho, também é finito, como todo sistema e regime que passa por crises até cair e então, precisar ser refeito.
O que tem um grande peso também na ficção, é sua capacidade de dialogar com a realidade atual tanto como metáfora como também como uma causa ou consequência do que se vive. E isto está lá: Metáfora e consequências provaveis. E a pesquisa somada a um enredo bem estruturado me vem como um respeito ao leitor, por acreditar na sua capacidade de raciocínio, não fazendo-o engolir um mundo novo totalmente incompreensível e não palpável.
Mas Cyber Brasiliana, não é a história de um mundo, é a história de pessoas. E os personagens, para mim são o ponto chave.
Não vou detalhá-los para não estragar a surpresa do leitor, mas as construções são do meu gênero favorito, são personagens com personalidades complexas, bem construídas, com suas razões, emoções, momentos de força, de fraqueza, de devaneio, de dúvidas de si mesmo, falhas, motivações reais, medos, virtudes e defeitos. Além disso, os personagens são mutáveis, evoluindo conforme a trama, e também revelam segredos. O autor nunca nos diz tudo a respeito das reais intenções de cada um, tanto os protagonistas, quanto os antagonistas, revelam reais intenções e motivações ao longo da trama.
Outra questão que adorei no livro é o tom real dos acontecimentos. Não existem heróis predestinados, ou vilões que são pura maldade, porém, há violência e bondade como existe nas coisas que acontecem no dia a dia, no mundo inteiro.
Como um registro da vida de alguém, uma cortina é suspensa a cada passo que se dá dentro da narrativa, com amor, surpresas, perigos, máscaras que caem, certezas que são erguidas. E o melhor tipo de herói, aquele que se torna um ao se deparar com a situação problema e resolver enfrentá-la por seus princípios e pelo bem maior.
O final realmente surpreende. Ele é sólido, com sofrimento, alivio, esperança e cicatrizes físicas e psicológicas que marcam tanto os personagens quanto o leitor. Não se sai do mesmo modo dessa leitura, cumprindo o real papel de um livro (na minha opinião) que é tirar o leitor de seu lugar de conforto e fazer parte da sua vida.

Eu fico muito feliz por ter adquirido esse livro, ainda com autógrafo, e recomendo essa obra aos quatro ventos.

Um romance ficcional de alto nível, um dos melhores. (ou até mesmo, o melhor que já li).
Richard Diegues é um dos poucos autores que promete mundos e fundos na sua obra, e cumpre com excelência. 

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Entrevista na Editora Coerência