segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Distúrbio

As memórias podem morrer?

Autora: Valentina Ferreira
Capa: M. D. Amado
Ilustração de Capa: Frenta
Diagramação: M. D. Amado
Editor Responsável: M. D. Amado
Revisão: Celly Borges





De outra leitura feita de uma obra da mesma autora na antologia “Cursed City”, também da Editora Estronho, já se podia saber que história esperar, porém, esta veio de um modo muito diferente.
De fato, eu li a sinopse e assisti ao booktrailer do livro, e daí já sabia o que esperar.
Porém, acreditei que a escrita desta autora portuguesa (que cá entre nós tem uma grande fome por escrita e está classificada em mais uma série de antologias) seria muito mais violenta do que realmente foi.
Isso quer dizer que “Distúrbio” é uma leitura leve? Não. De maneira alguma. É uma leitura incrivelmente densa, com infinitas questões que sujam nossa alma com perguntas sobre os “padrões” que nossa sociedade vem seguindo, como também, de cenas fortes, cheias de angústia.
Mas, o que desejo ressaltar nesse início de descrição, é que a escrita de Valentina Ferreira está exatamente no equilíbrio da densidade de situações e suas descrições fortes, e o estritamente necessário para se contar a história. Assim, apesar do enredo pesado não há apelações nas descrições ou no próprio modo de revelar as palavras durante seu claustrofóbico romance.
Antes de falarmos do que há no texto, quero dissecar um pouco a qualidade gráfica da obra. M. D. Amado sempre caprichoso, traz imagens de diferentes artistas para dar corpo ao texto. As internas, assim como a capa, refletem uma infância perdida, feia, torta, fora do lugar, apesar de toda a simetria dos obejtos dispóstos. A ilustração da capa em si, me trouxe além desses elementos a idéia também de uma moradia velha, decrépita, soturna, uma mistura de filme de terror com pesadelos. A escolha da coloração marrom (tendo por trás, acredito, o vermelho e o preto) foi uma grande sacada, pois saiu do costumeiro preto/vermelho. As sombras estão muito mais presentes e a ambientação de abandono – mas sabendo que alguém espreita, ou esteve ali a pouco tempo – já começa a incomodar logo pela capa. O nome do livro mais o da autora ficaram em fontes bem interessantes que deram o toque rabiscado à mensagem inicial (ou alguém dúvida que a capa é a primeira mensagem que o livro traz?). O nome “Distúrbio” em si, tem aquele estilo delicado, mas feito sem precisão, lembra-me riscos no quadro negro. Mas, as imagens internas é que são muito mais fortes e perturbadoras.
As separações dos capítulos são feitas através de uma faixa preta na vertical na lateral externa das páginas à direita, causando uma sensação de aperto que também está equivalente com a prisão que de fato é a vida da protagonista.
Agora, vamos ao texto.
Um dos primeiros comentários que fiz a respeito da leitura, é que foi fácil apegar-me à um personagem, e odiar outros. O envolvimento com os acontecimentos da família da personagem principal é inevitável. Os personagens foram muito bem construídos, mas parecem viver em grandes extremos. Há os que são sinônimos de crueldade e perversidade, e outros que vivem a vida de uma forma doce, ou pelo menos, normal.
Bom, como a autora é portuguesa e a Editora optou por não adaptar a escrita, hora ou outra tem uma expressão difícil de entender, mas para isso, as nota de rodapé, resolvem tranquilamente. Tem o fato de ser gostoso também “ler com sotaque” (não achei uma expressão melhor para essa sensação) que mesmo sendo familiar à brasileiros, não deixa de ser estrangeiro. Um diferencial à parte, realmente.
Toda a trama é traçada com envolvimento, trazendo bem a forma como Rossana, desde pequena, é envolvida em uma teia de aranha sem ter como escapar, onde moldam seu corpo, sua mente, e por fim, drenam-lhe a capacidade de pensar ou reagir. Todas as esperanças são ceifadas. Um enterro após o outro de todas as suas vontades.
Mas o que há em distúrbio? Aqui tudo se fala! Uma mãe que projeta seu sonho fracassado em sua filha mais velha. Uma garota que vive à mercê do seu corpo, não por sua própria vontade. Um refúgio nas drogas. Abuso sexual. O mundo potencialmente distorcido da moda forjando utopias. O início de uma adolescência cheia de problemas. Atitudes desesperadas para fugir da realidade insana em que vive. Um amor forte com todo o furor e cumplicidade que dois adolescentes podem sentir. E muitas, infinitas marcas pelo corpo, e na sua memória.
Não é o retrato de uma “volta por cima”, de uma esperança, é tão somente um buraco cavado bem fundo, de onde muita podridão nasce.
Se fossemos tirar algum tipo de lição ou moral, seria de fato de quantas coisas nós deixamos de ver, mas que estão ai o tempo todo, seja aqui, em Portugal, ou em qualquer lugar. Talvez, neste livro, estás infinitas lástimas tenham vindo a colidir sobre uma mesma garota amaldiçoada por ser bonita, ou pior, por ter seres desestruturados como formadores de sua família. Aqui, todo o sofrimento da garota vem em resposta à ambição de seus pais que fazem de seus desejos os verdadeiros “distúrbios” presentes no enredo. 
E talvez, apenas talvez, poderíamos dizer para essas tantas “Rossanas” que gritem, gritem o mais alto que puderem, e a todos, pois o silêncio sempre será complacente com a dor e finais trágicos.
Neste enredo, você se deparará também com bons momentos, com degustação de pequenos prazeres, com risos. Aqui e ali um pouco de ação, mas muita tensão. Será dificil parar para respirar, antes que chegue o final. E no final, talvez ainda o ar lhe falte.
Terminei a leitura deste livro com muita vontade de parabenizar a autora pela ousadia do tema e pela forma de abordá-lo. Também, à incentivar (mesmo não sendo necessário) que a Editora Estronho continue a publicar romances que não são fantasia. Mais que isso, queria poder dormir sem ter a certeza que essa protagonista é só um reflexo de tantas garotas, ricas ou pobres, escravas dentro de suas casas, escolas, e até em seus pensamentos. Garotas que se mutilam, que se auto-anestesiam, que se afogam na quietude das suas lástimas sem poder se livrar das algemas lhes impostas por verdadeiras lobotomizações feitas desde antes de saberem falar, por aqueles que deveriam lhes amar e proteger. 

Um comentário:

  1. Olá Carol.

    Queria agradecer pela resenha.
    É tão bom saber que aquilo que passamos para o papel foi compreendido pelo leitor e que, ainda mais importante, tenha marcado de uma forma ou de outra.

    Um beijo,
    Valentina.

    P.S: tentei responder pelo twitter mas ele não me deixa escrever nada :x

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