Uma cômoda (e não só uma caixinha) de surpresas


Ser deficiente física é uma caixinha de surpresas. Melhor dizendo, é uma cômoda, cheia de gavetas com surpresas esperadas, que você sabe que, mais dia, menos dia, serão abertas e irão pular até você, lhe agarrando, mudando seus planos, levando-o a repensar cada passo da sua vida.

Já vi discussões de todo tipo, sobre pessoas que veem em nós, pessoas com deficiência, inspirações de superação e garra para suas lutas, e para mim, tudo bem com isso. Não que eu, ou algum de nós, seja melhor, só que aceito bem esse estigma, no lugar do antigo (e ainda bem usado, infelizmente) que nos coloca no grau de maior tragédia, com frases como: “olha só, como eu (pessoa sem deficiência) estou bem, já pensou se eu tivesse aquela doença ali, igual da Carol.”
Sim. Existiu. Existe. É terrível, mas hoje já não me abala.
Cansei bastante também de ver/ler, inúmeras vezes, sermos representados como catarse do outro, um expurgo falso para quem tem um corpo totalmente funcional e saudável. Somos usados em filmes e livros, só para fazer chorar, ferrando por alguns minutos com o emocional de gente que está bem longe de ser como nós, e reforçando o pensamento de dó para com a gente. Nos poupe, ok? Nossa deficiência não é quem somos. Bora substituir dó por empatia, meu povo.
Mas hoje eu quero falar sobre as gavetas das surpresas. Esses outros assuntos, um dia, a gente retoma. ;)
A gaveta da dor é uma das mais abertas. Na verdade, tem a gaveta com as dores da deficiência e a gaveta com as dores que a deficiência causa.
Um exemplo disso, bem prático:
Minha perna esquerda, com todas as suas imperfeições e cirurgias, dói. E quanto mais dói, mais forço o resto do corpo para compensar ela estar mais fraca e frágil durante o caminhar, e aí, dói a coluna, dói a perna direita (a que eu chamo de perna boa hehe), e por aí vai... várias pequenas dores no mosaico da síndrome óssea (que é meu caso).
As dores vêm, às vezes diárias, às vezes no frio, ou quando há muito esforço. E quando elas vêm, algumas vezes, a gente já sabe que irão chegar. Nós vamos sentindo a diferença no corpo que já é diferente e BAM. Mudança de planos. É aquele passeio que não vai rolar, é o tipo de trabalho que terá que mudar, e os hábitos que somos obrigados a refazer. (já contei pra vocês que eu sou atriz formada, mas não quis atuar? Pois então...)
Sim. Muita gente passa por isso. Mas o modo constante de como essa gaveta é aberta, gera o ressignificado imediato da nossa vida e das nossas escolhas.
No caso das dores pouco agudas diante diante nosso patamar de comparação, são tão comuns que a gente nem reclama, e só vai seguindo em frente. Perdi a conta de ter ouvido coisas do tipo:
“Mas você nunca se queixa de dor”
“Mas nem parecia que você estava com dor”
“Mas porque você foi lá, mesmo com dor?”
A resposta é bem simples. Para a maioria de nós, a dor faz parte, e não, ela NÃO VAI ser curada. A maioria de nós, mesmo com tratamentos médicos, cirurgias (que é meu caso) e medicações, não alcançaremos um estágio tal, em que todas as nossas dores e dificuldades serão sanadas. Por isso nossa busca acaba sendo conviver com isso – tudo – do melhor modo possível: focando no que realmente vale a pena: nos nossos sonhos, trabalho, amigos... Focamos no que nos diverte e deixa nossa vida mais leve. (essa é a gaveta do estímulo, que a gente abre todo dia, pra não desistir de lutar e viver).
A outra gaveta, que abrimos todo dia também, e normalmente sem perceber, é aquela cheia de limitações, que são inúmeras, e gente sem deficiência nem imagina. Aquele barzinho super legal, que só tem acesso com escadas. A casa daquele amigo, ou a empresa, que para chegar, tem ruas íngremes demais, calçadas desniveladas e lixo, e até a escada muito íngreme, sem corrimão. O ônibus que não é adaptado, as pessoas desgovernadas no metrô, o balcão alto que não permite ao cadeirante, pagar a própria conta...
Ah, tem também a gaveta da galera reclamoma que acha ruim, quando a gente passa pela rua em vez de andar sobre o (caralho) do piso escorregadio que colocaram na calçada. Mas ninguém vê que a gente manca, que a cadeira de rodas não tem lugar para sua travessia, que as muletas ocupam espaço e no (caralho) daquele piso, escorregam.
Pois bem.
Na nossa cômoda, com gavetas da deficiência, tem aquelas frequentemente visitadas, mas que a gente sempre quer evitar, por motivos óbvios:
A ida ao médico com exames para saber se está tudo bem, ou se pioramos. Exames para saber se o problema x, na coluna, agora não criou um problema y no pulmão.
Tem a gaveta com a falta de preparo do pessoal das academias, que não sabem o que fazer com o deficiente, e aí, em todo lugar, temos que correr atrás de um especialista, o que me faz pensar no termo usado quando falam sobre nós: alunos especiais, pessoas especiais, tratamento especial. Mas na rua, no dia a dia, de especial não temos nada, somos segregados, e a gente que se vire. (E a gente se vira, ok? Aprendemos isso bem cedinho.)
Certa vez, eu disse para a professora de natação que eu afundava quando virava a cabeça durante o nado, pois ao girar o pescoço para o lado para respirar, perdia o equilíbrio e a força da braçada, engolindo água. Ela disse que era coisa da minha cabeça, nem pediu para ver minha radiografia, pois, lá ela poderia enxergar os 17 pinos que seguram minhas vértebras da bacia até o começo do pescoço, e como o movimento do pescoço limitado altera o resto da minha força. Eu larguei as aulas naquela semana...
E tem, claro, a gaveta das escolhas, dos pesos e medidas. Pois o corpo reclama se a gente quer fazer tudo, e quando ele reclama muito é sinal de que teremos de parar por mais tempo que o desejado. Então, tem aquele dia do repouso, de tomar um remedinho, de largar os compromissos para que o corpo possa retomar as forças. Essa é a gaveta que eu menos gosto, eu detesto mesmo. Mas não posso jogá-la fora... paciência.
Cada pessoa com deficiência, sabe bem quais são suas gavetas, aquelas das quais temos medo, e aquelas que a gente já segura pela mão e chama de amiga. Sabe qual pesa mais, e qual a gente quer trancar, mas que ainda sim, sempre estará a espreita. Não é a toa que todos que tem um amigo, um familiar, ou um companheiro nessa situação, já estão acostumado a reservar um espaço no seu mundo, para acomodar essa cômoda, pois, por mais que, hora ou outra, a gente se imagine sem ter que carregar essa cômoda conosco, e por mais que ela não nos represente como um todo, é impossível ser quem somos sem ela.
Então, acho que aquilo que faço, é o que faz a maioria de nós, já que tentar escondê-la é inútil, cruel e impossível, reafirmamos que são únicas com enfeites, damos brilho pra ela, falamos dela com graça, tornando-a o charme especial de nossa casa-corpo.

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