A Arte da Invisibilidade – Monólogos de um escritor renitente – Vol I



Isto é mesmo uma resenha?
Posso abrir mão do vinho seco e tomar uma cerveja preta?
Tudo bem, vou escrever essa resenha hoje!

Autor: Allan Pitz
Produção Editorial: Editora Dracaena
Editor: Léo Kades
Projeto Gráfico e Diagramação: Francieli Kades
Capa: André Siqueira
Revisão: Valéria Righe Dias




Eu fiquei muito tempo imaginando como fazer essa “resenha” e pouco me convenço, agora nas primeiras linhas, de que seja isto que eu estou fazendo. Ou pior. É isto que quero fazer a respeito deste livro? Não. Não é isto que quero fazer. Eu gostaria, mais do que de resenhar ou falar sobre esta obra, é de sentar ao lado do autor e conversar sobre esse seu “monólogo” cheio de apreciação e elucubrações a cerca do nosso mundo, ou como eu gosto de chamar “nossa quase fadada humanidade”. Mas, confesso, tem maior importância os porquês dessa vontade do que a vontade em si (ao menos para um ou outro que leia essas linhas que escrevo ao som de The Smiths).
Dos motivos, o primeiro é que concordo com muito (quase tudo, talvez menos o apreço pelo vinho seco) que Pitz descreve em sua louca viagem sobre a “energia criacional” ou sobre as teorias da conspiração, ou pior, sobre esse nosso automatismo em obter sucesso dentro de um – cruel e perverso – sistema de regras opressoras e amarras de futilidade, em vez de felicidade real. Por tanto, aviso a aqueles que ainda não notaram, que serei muito pessoal e devo me empolgar além do costumeiro nessa minha loucura em tentar fazer jus a mente do escritor e suas percepções.
Assim, é chegado o segundo e real motivo pelo qual tomo coragem, ousada e rebelde, de falar dessa obra do modo que o faço. E ele, o motivo, é a filosofia. Talvez, aquela que eu entenda como sendo a real de todas, aquela que nos faz pensar, rever, que busca soluções possíveis, caminhos, mas nunca fórmulas e receitas. Afinal, a filosofia não deveria ser isto? O pensamento não deveria ser nossa maior arma, munida de questionamento, compreensão, estudo das situações, olhares profundos a respeito de pessoas, grupos, sociedade, planeta, e tudo o mais?
De outro modo, o quanto isso é incomodo? Sair do sistema, abandonar o jogo dependendo dele, como ser independente sendo que precisamos do todo para comer, andar, ler, nos locomover, etc...? Questionar e ver o quanto tudo está errado, o quanto somos frágeis perante o sistema, ou o quanto poderíamos ser, se soubéssemos disso, fortes e muito mais felizes e realizados, tudo isso dói. Dói sentir as verdades se diluindo em mentiras, corrupção, abstinência de valores, no mar das ilusões das quais vamos navegando a deriva, acreditando piamente, que remando com fúria e obstinação chegaremos em alguma praia. E então, se deparar com todos os questionamento de “A Arte da Invisibilidade” e descobrir que não há praia alguma. E se existe alguma ilha, ela tem donos poderosos, verdadeiros canibais, que o deixarão ficar enquanto lhes for útil apenas, sendo este, só mais um trabalho escravo.
Está tudo errado. E então, tornar-se invisível, reconhecendo o que é invisível, é, talvez, nossa única esperança.

Este foi meu desabafo pessoal, e espero agora conseguir falar sobre o livro.

Com uma proposta muito interessante, e um estratagema bastante não linear e pessoal, Allan Pitz descreve uma série de pensamentos sobre o modo que enxerga a construção de nossa sociedade e as amarras que nos fazem, dia após dia, lutar por lugares e reconhecimentos que, na maioria das vezes, não são aquilo que realmente desejamos, e que, dessa forma, contraditória e opressora, nos faz de escravos.
Do macro ao micro, e vice-versa, segunda Allan, o que fazemos é nos prender em futilidades todo o tempo, o que vai desde a escolha de uma profissão, nossos sonhos, ou os relacionamentos que forjamos e mantemos por interesse, cada um com sua máscara, e assim, vamos nos perdendo entre tanta superficialidade, nos vendendo como produtos.
Um ponto também citado pelo autor é que, enquanto estamos cansados demais para atuar de modo verdadeiro às nossas escolhas e necessidades, outros, mais poderosos e donos do jogo, criam essas regras que nos amarram durante toda a existência da sociedade.
Porém, para ele, existe uma possibilidade de, se não é possível reverter o processo, ao menos, não ser enganado por ele. A arte da invisibilidade então – do modo que eu entendi, e o autor, por favor, me corrija se não compreendi o que quis dizer – consiste em fazer escolhas conscientes sobre quais regras queremos utilizar nas nossas jogadas. De uma forma, talvez, mais clara, é o momento em que você percebe o que realmente quer pra si, e passa a usar o sistema e a sociedade, apenas no que realmente lhe interessa, e sem fazer dessas metas de sucesso impostas por ela, seu real objetivo de vida. Mas atenção, usar o sistema, não é usar as pessoas.
Mas e o livro? O que são esses monólogos?
Os capítulos são uma tentativa de mudança ordenada e cartesiana dos pensamentos de Allan Pitz sobre essas questões, porém, o que há de melhor ainda, é sua forma pessoal e sincera de trabalhar com isso, revelando as situações em que se encontra enquanto escreve sua obra (como o vinho seco que ele parece tanto apreciar), revelando situações pessoas, as relações com o editor, com seus vizinhos, seus anseios, tudo isto em uma montanha russa de certezas e dúvidas.
O livro ainda inicia com uma posologia, para a apreciação do mesmo, que eu não respeitei!
“A Arte da Invisibilidade”, tem um ar bonachão e sincero, de amigo para amigo, que grita empolgado sobre suas descobertas em uma mesa de bar ou no sofá da sua casa. Passa muito longe de livros cheios de instruções e fórmulas meticulosas de gente instruída que busca, à partir daí, convencer-nos de sua ideia.
As viagens de Pitz passam por inúmeros conceitos, mas parece que o principal dele, é aquele que a todos nós, ou a grande maioria, tem acesso sem notar. A capacidade de observar, e ver o que se esconde por trás do que nos foi ensinado a ver.
E muitas vezes a frase "tornar visível o invisível" de Peter Brook, me surgia. Fora do contexto do diretor e dramaturgo, mas resumindo, se isto fosse possível, o livro de Pitz que, intitulado volume um, parece guardar em si mais dessas questões a serem divididas.
E nada que escrevi, parece realmente sustentar o livro, é ainda uma outra coisa, um outro momento, um sonho, uma troca, uma conversa, um caminho, muitas paradas, lugares vazios, incertezas, motivos...
Pitz, é um vendaval desenfreado de ideias que, ou nos arrasta, ou causa tanto estrago que nos obriga a reconstruir. É um dragão que cospe quimeras e questionamentos, e depois pisca o olho direito como se, para ele, atear diretas e chamas que iluminam nosso cinismo natural, fosse apenas parte do seu café da manhã, rotineiro de todo.
Já aprecio a escrita de Pitz de outras obras,  mas aqui, ele parece, assim como suas ideias, desnudo de qualquer outra vontade que não seja de nos falar, nos abrir os olhos, desanuviar a mente de tantas informações, sabendo que a melhor forma de nutrir-se, é plantar.

Mais de Allan Pitz e suas obras você encontra aqui: paquidermesculturais.blogspot.com.br

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Entrevista na Editora Coerência