domingo, 18 de dezembro de 2011

O Reino dos Sonhos - A Cidade de Cristal

Um livro além de um mundo mágico

Autora: Natália Couto Azevedo
Capa: M. D. Amado
Ilustração de Capa: Doreen Salcher
Ilustrações Internas: Doreen Salcher, Linda Bucklin, Bowie15 e Maryna Halton
Diagramação: M. D. Amado
Editora Responsável: Celly Borges
Revisão: Celly Borges



Inicialmente nunca fui fã de fadas. Nem em filmes, livros ou qualquer meio que fosse. Mas já faz um tempo venho querendo me desfazer desse preconceito. E acredito que, graças à Natália, hoje posso ver-me livre desse comportamento tão vergonhoso (risos). Mas, brincadeiras à parte, O Reino dos Sonhos – A Cidade de Cristal, é um livro cheio de méritos e tentarei fazer o mínimo de justiça a ele nesta resenha.

Na verdade, a leitura deste livro era algo que já ansiava desde que vi o Booktrailer divulgado pela Editora Estronho, onde um mundo mágico se ocultava e se revelava diante os olhos e todos os sentidos. Porém, quando adquiri o livro, havia outros títulos aguardando meus momentos de dedicação, mas ao olhar a linda capa, aguçava-me cada vez mais a leitura. Então, depois de foliar e me deslumbrar com o trabalho primoroso já conhecido desta editora, e depois de ler a sinopse na quarta capa, não tive dúvidas. A vontade de ler está história passou à frente, e finalmente a vida de Elorá (personagem principal) se desdobrou aos meus olhos junto a um mundo mágico.

Um fato bastante complicado, porém, é escrever algo com um toque de literatura juvenil. A qualidade sempre me parece algo difícil de alcançar, e muitos autores criam personagens tão superficiais e fúteis (retratando certo tipo de adolescente tão alienado e superficial) que me causa repudia durante a leitura. Na verdade, eu tenho muito receio (para não usar alguma palavra mais forte) de qualquer tipo de produção cultural que vincule um padrão vazio que acabe legitimando comportamentos semelhantes e encarando essa banalidade como algo natural ao adolescente. O que não é!
Então, me permito aqui, abrir um adendo. Adolescentes por mais rebeldia e dificuldades emocionais que os fazem mudar de opinião ou se arriscar rapidamente em diferentes tendências e âmbitos, são, na verdade, sedentos por respostas, conhecimentos, descobertas. O problema é que hoje, nossa sociedade como está, tem muita dificuldade de lhes corresponder, assim, essa rebeldia acaba levando-os na maioria das vezes à superficialidade. E o que vamos fazer? Dizer que é assim mesmo e reproduzir falhas de caráter como exemplo, ou lhes dar vós e ainda mais, mostrar que tudo pode ser diferente, maior, melhor?
Assim, fico muito feliz quando me apresentam uma personagem adolescente que vive sim com todas as dificuldades de sua idade, como também, vai além. Ela faz escolhas, ela amadurece, ela pensa o mundo ao seu redor. Se apaixona, chora, tem sonhos, come doces, cultiva uma melhor amiga, fica envergonhada, mas que principalmente, amadurece durante a trama. E vê, por diferentes motivos, que o mundo é muito maior do que suas pequenas dores.

Mas claro que este é um livro de fantasia, então, para aquecer na trama e nos envolver com o enredo, os problemas da jovem transpassam ainda os problemas do mundo, e vão para os problemas de outro mundo. Só por isso, eu já dou uma salva de palmas à Natália.

Outro mérito do livro são os cenários dos dois mundos descritos pela autora. É tanta riqueza de detalhes que eu realmente me vi dentro da história, me vi fazendo os mesmos passos que a personagem, acredito ter deslumbrado do ônibus, dos prédios da faculdade, do seu quarto aconchegante, do parque. Mas principalmente, das cores lindas do mundo feérico, as construções majestosas, as flores, as árvores, a cachoeira, enfim. Fiquei deslumbrada com a força dessas imagens. Muito! Além do que, uma sensação incrível de que o Reino dos Sonhos parece ser muito mais vivo, do que o mundo real. Uma magia etérea toma conta de toda a aura do livro.

A aventura é narrada em primeira pessoa, e o interessante aqui é que a história não fica maçante. Mesmo quando nos perdemos nas sensações e apreensões da jovem, é tudo leve. A personagem se aproxima de nós com jeito, e aos poucos, ficamos familiarizados e simpatizados com sua simplicidade, ao mesmo tempo, em que ela é única, diferente.

As vidas dos demais personagens não é algo sobre o qual a autora se desdobre, não se sabe muito sobre eles, mas mesmo os mais misteriosos deixam pistas de sua verdadeira essência. Apesar de preferir personagens cheios de vida pregressa (que trazem uma maleta com sua história de vida, digamos) funcionou muito bem aqui, pois a leitura flui muito rapidamente, cheia de energia e dinamismo. Nada além do necessário, apenas aquilo que influência na vida de Elorá. Porém, nem por isso eles são mornos. Tem trejeitos, charmes, personalidades únicas e para cada um, um cantinho especial durante a travessia dessa história.

Agora, quanto ao livro físico. Quem já leu ou foliou algum livro da Estronho sabe o que é a diagramação do M. D. Amado. O capricho com as escolhas das imagens, o lado interno das capas cheias de detalhes, sempre coloridas. O cuidado nas fontes escolhidas até para a numeração das páginas.
Eu gostei muito das imagens utilizadas para capa, e também das internas. Entre os capítulos, as páginas ficaram leves, simples, a imagem de uma borboleta em cada um deles, deu um toque muito belo e mágico.
Apesar do rosa (que eu não curto muito) predominar na capa, ela é linda e cumpre o desejado, combinando com as sensações predominantes no enredo. Agora, se você achou uma coisa muito “fofa” a borboleta no rosto da garota, surpresas aguardam, em cada detalhe. E meninos e moços, fiquem à vontade. Leiam que vale a pena.
Não é uma história de suspense, à pesar de haver uma certa dose de segredos a serem descobertos, é sim, uma história encantadora e leve, cheia de magia e beleza.

Apesar de todas as virtuosidades que o livro possui, as quais ainda ficarão comigo por muito tempo em sonhos e lembranças, o maior mérito é o encantamento. A narrativa é um chamado cada vez mais para dentro e para frente dessa trama, desses mundos, dessa garota, dessas paisagens, verdadeiras pinturas. É como uma música que não se pode deixar de ouvir. Não sou a mesma depois desse livro. Me sinto mais humana, mais leve e acredito um pouco mais no poder da fantasia e dos sonhos.

Agradeço à Nátalia Couto Azevedo por esta história incrivel, e fico no aguardo, muito ansiosamente, pela continuação.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Teia Virtual

Uma trama policial do mundo moderno.

Autor: Carlos Eduardo R. Bonito
Capa: Dimitry Uziel
Diagramação: M. D. Amado
Revisão: Georgette Silen
Modelo de Capa: Danny Pilotto
Editora Literata




No mundo da literatura e das artes em geral "idéias" é algo que parece não faltar. As que conseguem sair do papel, ou nesse caso, irem para o papel impresso, nem sempre são geniais, ou inovadoras. Dentre as verdadeiras boas idéias, porém, o que tenho visto é um misto de total quebra de limites, ou então, verdadeiras pérolas muito simples, que nos fazem indagar “Como ninguém pensou nisto antes?”. E a obra de Carlos é uma dessas idéias que retratam algo tão provável de acontecer na vida real, que justamente por isso, é fabulosa.
Aqui, um serial killer, desses super inteligentes e metódicos utiliza-se da segurança das redes sociais e da interação virtual para cometer seus crimes. Como ele faz isso? Aqui eu não digo, é algo que você só ira descobrir lendo. Mas já da pra ver a boa idéia do autor.
Os personagens, vamos falar então sobre eles: os coadjuvantes são interessantes e, digamos, dois deles, cheios de problemas de personalidade. Helena e Alexandre são do tipo carismáticos e inconstantes, deixando a sobriedade para a terceira heroína, Beth, que parece equilibrar o trio.
Aprofundamento mesmo, existe apenas em Alexandre e em um quarto personagem que aos poucos se torna muito importante no enredo, Álvaro. Voltas ao passado dos dois criam laços incríveis com o leitor, e é neles que o autor abusa para tocar em nosso emocional.
Já o antagonista, o serial citado anteriormente, tem um lado pessoal bastante forte, mas ficou mais estereotipado. Mas que funcionou bem na história.
Como pontos negativos da obra, a revisão tem falhas, coisa que até se o autor reler pode arrumar para uma próxima edição, e a capa não convence.
A mulher loira de gatinhas com os seios de fora não tem nenhuma ligação com o livro. A não ser que exista algo muito subjetivo que eu não peguei. A idéia de trabalhar com a teia de aranha fazendo referência ao título e a própria rede de internet é bacana, mas poderia ter sido mais bem trabalhada.
A diagramação das páginas tem as letras um pouco menores do que na maioria dos livros, o que na verdade, me agrada. Pois certos livros têm letras tão grandes e com tanto espaço que chega a ser um desperdício de papel. Vale ressaltar, não é porque um livro é grosso que ele é um bom livro, e o contrário também é verdade. Nas páginas há a reprodução da teia, quase como uma marca d’água, dando um toque especial.
Como o autor conduz muito bem a história, e toda a trama acontece muito rápido, a leitura flui sem cansar, mesmo com as letras menores.
E este é um ponto a favor. Visto que se trata de um romance policial, prender a leitura com suspense, ação, idéias mirabolantes e investigativas é essencial. Aos poucos, os fatos se desdobram contados por diferentes personagens, tanto por réus, pelo antagonista, ou também por um dos mocinhos.
Aqui há espaço para cenas mais apimentadas e um pouco grotescas, como também para um romance de leve.
Outros personagens bem bacanas fazem ponta, sempre se mostrando mais do que realmente seriam.
Um artifício aqui presente, que já não me agrada muito, é a mudança de perspectiva de uma hora para outra sem nem mesmo um espaço, ou qualquer separação. Já vi isto em outros livros, e sempre me causa uma sensação de estranhamento negativa. Não a mudança em si de ponto de vista, mas sim, a mudança sem aviso.
O final também me chocou. De modo bom e ruim. 
A parte ruim é que senti o autor correndo para encerrar, e quando chega ao ápice algo inesperado resolve tudo sem muito tato. Senti falta de curtir o final, tanto as conquistas dos personagens quanto as perdas, afinal, nos apegamos a eles no decorrer do enredo e do desenvolvimento da história. Porém, as escolhas foram boas, resolvendo o que era necessário, mas mostrando que nem tudo são flores, deixando ainda um espaço para uma reflexão de vida.
Teia Virtual é antes de tudo uma grande idéia, uma trama envolvente, um livro que merece ser lido.
E mais além, é um livro cheio de lições, tanto do cuidado que se deve ter nas redes sociais, dizendo tudo que se pensa e se é sem saber exatamente com quem esta lidando, onde todo tipo de gente pode ludibriar e enganar até as pessoas mais espertas que, em um momento de fragilidade, se deixam envenenar. Como também uma lição do tipo "não guarde magoas, não seja teimoso, de valor à vida e às pessoas".

O livro é muito bom,  parece que saiu uma segunda edição, então torço para que esses erros tenham sido corrigidos. 
Fica também como dica de leitura, o potencial do livro e do autor valem muito a pena.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Arquiteto do Esquecimento

Uma vida inteira que se desdobra.

Autor: Marcos Bulzara
1ª Edição 2009
Coordenação: Valter Jeronymo – Life Editora
Projeto Gráfico: Mota Junior
Capa e Ilustrações (Criação e Finalização): Luiz Roberto Farias Filho
Revisão: Valter Jeronymo
Revisão Final: Neide Poli
Impressão e Acabamento: Gráfica Viena
Life Editora.




É curioso como certos temas, bastante recorrentes, tem a capacidade de encantar ou nos distanciar de uma obra de ficção por motivos difíceis de reconhecer ou entender. Reutilizar fórmulas ou idéias te deixa sempre no limite entre o formal e o íntimo, próximo. Não é para tanto que o romance de Marcos Bulzara se perpetua nesse limiar.
O livro, em verdade, conta a história de um judeu polonês antes, durante e depois da Segunda Guerra, com suas perdas, suas lembranças, suas aflições, medos, e vitórias. E o que há de diferente em Doran, o personagem principal, é que ele é um gênio. Alguém com uma grande capacidade de raciocínio e aprendizado.
Particularmente, sou fã dos fatos e histórias que se passam durante esta época da história, como há de haver muitos outros, e o autor foi muito venturoso nessa empreitada. Tanto as descrições da pacata cidade natal do personagem, quanto o campo de concentração são muito fortes, bonitas, cheias de vida (ou morte no segundo caso) e reais.
Outro fator muito interessante é a qualidade e estrutura emocional dos personagens chaves que na verdade são os de maior importância para Doran. Eles têm seu brilho próprio, mas não o suficiente para ofuscar o protagonista. Já os demais personagens ficaram um tanto estereotipados, sem aprofundamento, cumprindo apenas seus papéis de maneira rápida e sem ganhar o leitor.
No entanto, em relação à estrutura duas coisas me incomodaram bastante.
A primeira foi a repetição. Idéias, temas, sentimentos são insistentemente usados durante o livro, onde, o autor, em curtos espaços, repete sensações do protagonista, o que acaba deixando a leitura cansativa algumas vezes.
Em segundo lugar é que o autor cisma em fazer um suspense que não convence, dizendo que esse ou aquele personagem irá sofrer como não imaginaria, que o inesperado vai acontecer, que essa ou aquela pessoa virá a se revelar de modo inesperado, que muito sofrimento estaria por vir e por ai segue.
Estes dois fatores fazem com que um livro que guarda uma ótima idéia, e muita emoção, se torne mais extenso que o necessário e um tanto difícil de ler.
Mas nós não estamos falando de um Best Seller? Sim, estamos.
Apesar de não gostar de discursar sobre esse mérito (visto que ser Best Seller nem sempre garante que um livro é realmente bom) acho interessante ressaltar que a história criada por Marcos Bulzara é uma história envolvente, emocionante, que pode arrancar lágrimas e sobressaltos, além é claro, de tocar na ferida eterna e recente que foi a “ditadura hitlerista”.
Apesar dos pontos que considero negativo, não enxergar a complexidade da obra que provavelmente foi feita com muita pesquisa, cuidado, trato e dedicação, seria injusto e errado.
O livro foi feito para se emocionar, e ainda assim busca um questionamento, mas que fica mais como cenário do que como ponto chave. E ai chegamos no que realmente confere ao título.
Esquecimento. O que seriamos capazes de fazer para esquecer coisas do passado? O que gostaríamos de esquecer? Ou ainda, porque a humanidade cisma em fingir não se lembrar de tantas calamidades causadas (como guerras) e repetir seus erros?
Neste romance, você não encontrará as respostas. Nenhuma delas. Mas irá se deparar com a realidade de alguém (um alguém ficcional) que viveu essas questões.
Em volta desse universo, nos depararemos com organizações secretas, jogos de poder, corrupção, capitalismo, algumas perseguições, fugas, sangue, e muito sofrimento. Tudo amarrado para construir a trama que envolve a vida do personagem (e talvez nossa realidade).
Em relação ao livro como objeto, as folhas são de um material muito bom, a formatação é grande e faz com que se ganhe as páginas rapidamente. A capa é interessante, a ampulheta parece marcar o tempo severo. É uma arte interessante, mas sem muita ligação com o “esquecimento”, porém, é chamativa e desperta a curiosidade para com a história.
No geral, é uma história muito bonita, sensível, envolvente. Com atmosfera melancólica, cheia de sutilezas. Ideal para quem gosta de se emocionar e se entregar às dificuldades da vida, e também, à esperança e alegria recorrentes às relações de afeto.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Deus Ex Machina – Anjos e Demônios na Era do Vapor

Vapor e mitologia em prol da literatura fantástica.


Vários Autores
Editora Estronho
Organização: Cândido Ruiz, Tatiana Ruiz, M. D. Amado
Montagem e arte da capa: M. D. Amado
Diagramação: M. D. Amado
Revisão: Celly Borges



“Deus Ex Machina” é outra das antologias da Editora Estronho com chamada e proposta criativa, que se diferencia também pelo capricho da edição. Em uma ambiente bastante saturado da literatura fantástica que é a “Guerra entre anjos e demônios” , os organizadores optaram por mesclar ao enredo a tecnologia Steampunk como objeto principal de trabalho para os escritores, ou até mesmo pano de fundo. De fato, não é uma temática fácil, e no final foram selecionados doze escritores que se juntaram ao convidado Romeu Martins, todos para nos contar de diferentes pontos de vista, e com bastante criatividade, caminhos e desventuras dessa grandiosa batalha.

O prefácio ficou por conta de Bruno Accioly, que nos indica que a viajem é para além de uma literatura de ficção sim, mas ficção de um passado que nunca existiu, (como é de fato uma característica do Steampunk), e que nesta feita, alinha-se ao celestial e ao improvável. Aqui, encontramos já o estilo um pouco mais rebuscado e de parâmetros cultos na escrita, o que esteticamente falando, já nos remete pela própria estrutura à época onde o gênero Steam é passado. Estilo esse que, em muitos contos, torna a aparecer.

Assim, aviso. Para os leitores desacostumados ou que preferem a simplicidade do coloquial pode não ser o tipo de obra a ser mais apreciada, mas tanto aos leitores que não se importem de por as engrenagens do seu cérebro para funcionar no desbravamento dessas frases ou para àquele que já está acostumado, “Deus Ex Machina” será um deleite de forma e conteúdo.

"Observação. Sempre que o termo “guerra” for utilizado, me refiro à guerra fictícia sugerida como proposta da antologia, e o termo “tecnologia” ao próprio gênero Steampunk.
Em segundo lugar, não sou uma entendida deste mesmo gênero, assim sendo, não avalio em nenhuma hipótese o quanto o que é apresentado se enquadra mais ou menos nesta temática."

Quem abre as narrativas é o convidado Romeu Martins (mais sobre ele e seus trabalhos no blog Cidade Phantastica) com “A diabólica comédia” (seria uma referência direta à "A divina comédia" de Dante?). Um conto onde interesses pessoais falam mais forte do que o “sangue” nessa batalha. Ele cruza diferentes mitologias levando a história aos primórdios da guerra. A tecnologia é um ponto interessante colocada sem prejudicar a fluência da leitura. Tudo bem equilibrado e com ótimas imagens.

“A seita do Ferrabraz” de Paulo Fodra já nos trás ao ambiente nacional, realizando toda a trama no Brasil. O personagem principal é um humano, que passa a viver acreditando que tudo que ocorre com ele é uma preparação para o seu futuro. O interessante aqui é que passamos um bom tempo na vida quase pacata desse homem sem saber ao certo o que irá acontecer. Até que tudo passa a fazer sentido quando sua missão se revela. Aqui, nesta história cheia de arrepios e cenário levemente sinistro, a tecnologia chega para cravar o início da guerra. Uma personagem coadjuvantemente me marcou muito, pois foi muito bem construída. E no fim nada é o que parece ser, ou quase. Gostei muito deste, cheio de arrepios e futuro incerto.

Norberto Silva, veio trazendo um pouco de ação ao livro. No seu conto “Anhaguera”, as surpresas não param. Com um ar bem nacional também, em uma cidade do interior (com um cenário muito real e de descrição excelente) nos envolvemos em mais uma batalha individual entre um ser celeste e um endemoniado. Aqui também nos aguardam surpresas de todo tipo. A tecnologia é explorada de maneira interessante e funcional, reservando também surpresas. Tudo é muito rápido, e o conto reflete certa urgência. Aqui a leitura também flui bem. Tema pesado, leitura leve. Boa dupla, ótimo conto.

Índios? Sim, índios! “O dia do grande Uirá” é sem dúvida um conto incrível. Ousado, criativo, e tão bem escrito que parece simples, mas não é. Aqui, Davi M. Gonzales abusou da “brasilidade” onde a maior parte da história é contada do ponto de vista desse povo que não tem absolutamente nenhum contato racional com qualquer tecnologia que seja. Onde tudo acaba surgindo através do olhar místico desse povo. As pistas se confirmam no fim. Onde pode-se notar preocupação com a natureza, e forte presença de corrupção e interesses políticos. Um diferencial é sua visão acerca de “anjos e demônios” e da própria guerra. Poético. Muito belo. Também gostei bastante.

“Nefilin” de Carlos Machado é um conto um pouco confuso, mas que com um pouco de atenção, pode-se desdobrar facilmente o quebra cabeça. Aqui, a presença de humanos também é forte, mas devido a quantidade de personagens, não é possível se aprofundar em nenhum deles. A verdade é que a história é boa, a guerra esta fortemente presente assim como a própria tecnologia, e uma ideia geral dos acontecimentos acaba ficando mais importante do que esse ou aquele personagem, mesmo que o desfecho revele algo surpreendente a cerca de um deles em especial. Aqui também tem espaço para viagens no tempo. Tudo parece um grande jogo de xadrez, onde nenhuma peça é movida sem repercutir em algo decisivo, não importando para qual lado.

Quando li o título “Zeitgeist – Brigada anti-incêndio” só tive certeza de uma coisa: não fazia ideia do que encontraria pela frente. (Até agora tento descobrir se teve alguma inspiração em ZeitgeistMovie). Mas falando sobre o conto de Yuri Wittlich Cortez: A tecnologia Steam é a base da narrativa, presente todo o tempo, visto logo a caracterização do personagem principal. Aqui, o improvável se junta ao que seria palpável. As surpresas ficam mais por conta dos segredos dos personagens que são muito carismáticos e diferentes, do que a “batalha final” em si. Obs: Durante metade do conto me lembrei da história de Ícaro.Não há grandes referências, mas a história sustenta-se por si só.

“O Sheol de Abaddon” de Alliah, fez uma aposta diferente. Aqui, a cultura egípcia ganha destaque entre engrenagens, a vingança de um demônio e, até mesmo, a visita a uma época remota, a mais remota de todas, e também a uma Inglaterra decrépita. A linguagem empregada é rebuscada, com algumas palavras nada presentes no cotidiano. Esta receita (e não fórmula) deu-se em uma história muito criativa, de temática forte, e com surpresas. Porém, com tantos elementos e referências diversas não consegui me aproximar da trama ou de algum personagem, seja o herói ou o antagonista, refletindo um enredo que não me tocou. Mas isto é uma questão de gosto e não de qualidade, visto ser um conto muito bem trabalhado.

Com personagens da mitologia grega repaginados no estilo steampunk, Georgette Silen, em seu conto “Avatar de Anjo” conta o início da guerra (prevista há muito tempo) que foi alterada devido a uma atitude isolada e corajosa. Aqui, o próprio inferno e céu existem graças a essa tecnologia. A maior parte do enredo narra uma estratégia isolada para que então, se possa entender sua trama apenas no fim. Achei a primeira parte um pouco cansativa, a quantidade de detalhes é imensa (poderia até assemelhá-la ao realismo que descreve cenário e ações minuciosamente), e a ação e os porquês demoram a acontecer. O final é bem interessante, mas não causa grande surpresas.

Então O. S. Berquó nos dá uma referência totalmente atual em relação ao tempo passado onde se passa a história. A trama é bem cuidada, enlaçada, e tem uma ambientação que me agradou muito. A tecnologia não está em primeiro plano, mas é cuidadosamente colocada ao desvendar o mistério passado. Aqui anjos e demônios não estão, necessariamente, em pé de guerra. Tudo é bastante subjetivo e a trama “A obscura história de Stelling Railways”, vêm com um toque de ação no final para incrementar. Destaque para a construção pouco linear.

“O pai das mentiras” de Leonilson Lopes, abusou bem do cenário da guerra, e a tecnologia pareceu bem empregada (com um verdadeiro “Deus Ex Machina” no final), mas senti o autor facilitando as coisas para os personagens. A história cumpre o papel de registro de uma batalha no meio de uma grande guerra, mas faltou um “quê” especial.

Já em “A máquina dos sonhos” de Daniel I. Dutra, anjos e demônios estão em guerra, mas sem afetar o mundo dos humanos de maneira chamativa. Eles atuam entre nós sem que a gente perceba, e é do mesmo modo que eles são apresentados na trama. O personagem principal foi muito bem construído, assim como as referências históricas citadas no enredo. A tecnologia foi empregada na medida certa, com seu grau de importância devido, e bastante peculiar. A leitura flui bem, as expectativas valem a pena, e o fim é ótimo.

Alex Nery entrou muito bem no espírito Steam, tanto na ambientação, como no personagem principal e nas descrições dos artefatos. Anjos e demônios são só uma pitada de requinte para o seu enredo. O aprofundamento do personagem é ótimo e dá vontade de devorar a história. A criatividade no conto “Os relógios pensantes de sua majestade” foi o ponto chave para uma trama envolvente, bem escrita, e forte. E aqui, a guerra é outra, talvez, muito mais cruel e com certeza, mais real. Outro que gostei muito.

Finalizando a antologia, “Cálico: entre o céu e o inferno” é uma história cheia de ação, onde tudo acontece muito rápido: descobertas, revelações, perseguições, tiros, voos, e em um único folego. Rebeca Bacin, investiu em uma personagem feminina, uma mulher que diante à situações extremas toma atitudes extremas e se revela mais capaz do que imaginava. O ponto baixo do conto é que tudo é tão rápido que a aceitação do improvável é muito simples, e com base em plena “intuição” a personagem se torna apita e resolve o mistério principal sem nenhum esforço. A tecnologia foi pouco explicada, fiquei com a sensação de ter “assistido um trailer”. A ideia é muito boa, mas poderia ter sido melhor desenvolvida.

O livro em si, reafirmo, tem muito a oferecer, e acho pouco provável não agradar.
A capa e diagramação são lindas, assim como as imagens internas. O papel é de ótima qualidade. Gostei muito da arte empregada pois remete mesmo ao mundo cheio de névoas de vapor e decadência. A parte interna da capa tem uma coloração tão real que parece realmente uma parede a descascar, repleta de ferrugem. E no meio do livro, umas imagens em papel de alta qualidade e coloridas dão um toque especial. Trabalhar com as cores “preto” e laranja (entrando assim no envelhecimento do cinza e na ferrugem) tornou o aspecto realista, caprichado e sombrio. Foram ótimas escolhas.

Os contos acabaram remetendo mais à batalhas individuais do que à cenas de grande destruição ou da guerra em proporções globais, sendo que, entre eles, existem verdadeiras pérolas de criatividade e ousadia.

Se a temática lhe agrada de alguma forma, a editora disponibiliza a degustação e mais informações, junto com lindas fotos aqui Deus Ex Machina

Vale a pena conferir.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ethernyt – Sob o Domínio das Sombras

E a aventura continua.

Autor: Márson Alquati
Coordenação Editorial: Ednei Procópio
Assistente Editorial: Juliana Medeiros
Comercial: Simone Mateus
Revisão: Sandra Garcia
Editoração Eletrônica: Equipe Giz Editorial
Impressão: Prol Gráfica
Editora: Giz Editorial




Este é o segundo livro da saga “Ethernyt” do gaúcho Márson Alquati, que já considero um entre meus autores favoritos, sem medo de ser exagerada ou demagoga.
Porém, prometi a mim mesma (e inclusive ao autor) dar minha opinião sincera a respeito de sua obra. Aqui no blog já fiz a resenha para o volume um da trilogia, Ethernyt: A Guerra dos Anjos e fiquei incrivelmente empolgada com a leitura que logo adquiri o segundo e pretendo enveredar no próximo em breve.
Mas vamos antes à algumas características que se mostravam no primeiro e que continuam neste.
Os personagens são muito carismáticos, fortes, de personalidade distintas, e que eu costumo caracterizar como “personagens tipo”, onde cada um tem um elemento principal (ou dois) de sua personalidade que o destaca e o individualiza dos demais. Porém, são personagens que não sofrem mudanças interiores com o decorrer do tempo. Mudando de posturas talvez, mas nada na sua personalidade é realmente alterado. Isto, inclusive, é bastante utilizado em filmes de ação que exigem muito mais dos acontecimentos para sua trama, do que da evolução do ser humano. Essa forma de construção pode dar muito errado, criando “pessoas” vazias para seus enredos, ou, como é o caso de “Ethernyt”, dar super certo, pois a velocidade dos acontecimentos não nos permitiriam mergulhar profundamente em todos eles, e porque eles foram forjados de tal maneira e precisão, que tornam-se palpáveis e logo nos apegamos a eles.
Outra coisa que me chamou atenção no livro anterior e que aqui continua é o cuidado histórico, geográfica, e técnico que permeiam a obra o tempo todo. Pois as aventuras que rapidamente se seguem no enredo viajam o mundo com os personagens, e a própria história da humanidade é reescrita a partir da “verdade” que vem à tona com a existência de anjos e demônios. No quesito geográfico vai desde passagens detalhadas por rodovias, cidades inteiras, lugares inóspitos, ou grande pontos de turismo com um cuidado inclusive arquitetônico na descrição. E na parte técnica, é que tanto os armamentos bélicos, os carros, aeronaves e tudo o mais, parecem ter saído de uma verdadeira enciclopédia trazendo incrível veracidade à obra. E toda essa pesquisa, é um sinal do quão empenhado o autor foi ao escrever essa trilogia que de comum, não tem nada.
Aqui, anjos e demônios, não são nada do que toda a mitologia e literatura fantástica já sonhou criar, e para garantir a originalidade e grandiosidade da obra, estamos às voltas também com extraterrestres, tecnologias muito avançadas, e conspiração, muita conspiração que, nesse volume dois, alcança toda a humanidade.
Na sequência dos dois volumes, Márson Alquati, vai do micro ao macro, das dúvidas e desafios de meia duzia de personagens para a catástrofe global, do medo do futuro para o caos personificado.
Confesso que sempre que um livro de fantasia mexe com toda a humanidade, me deixa com um pé atrás, pois a tarefa de narrar acontecimentos em todo o mundo com perfeição e nitidez é trabalhosa, árdua e pode deixar muitos furos, mas este autor não teve medo. E a tarefa foi cumprida muito bem.
Como pontos negativos do livro, há apenas detalhes. Primeiro que no último terço do livro, o autor usou repetidamente a frase “ato continuo” para expressar reações seguidas umas das outras. Não que seja algo grave, mas trava a leitura um pouco. Um detalhe que a revisão deixou passar. E em segundo lugar é que Márson tem o costume de colocar certos personagens fazendo piadas uns dos outros em vários momentos, inclusive nos de maior tensão. O que caiu muito bem no volume um, não ficou tão bom aqui. Pois em momentos de incrível apreensão e dificuldade essas piadas quebram a imersão e são “uma forçada de barra”. Fica uma dica: permita que as situação de peso ganhem mais veracidade e abertura quando elas se apresentarem, a trama leve é muito interessante, principalmente para um livro de 444 páginas de desbravamento e adrenalina, mas a densidade também faz parte. Que foi algo que ele conseguiu acertar no final, permitindo essa atmosfera mais carregada.
Agora, especificamente sobre o volume dois.
O começo do livro segue o estilo caça ao tesouro, seguindo pistas, armadilhas, e emboscadas, porém, essa parte logo passa, e vamos diretamente para as reais batalhas entre protagonistas e antagonistas, que aumentam de gravidade e dificuldade constantemente.
Um truque muito legal usado no livro, é que os lugares que são desbravados agora são muito mais antigos e encantadores que no primeiro livro, desde cidades de antigos povos que mudaram a humanidade para sempre, até lendas que poderia ser totalmente avessas ao dueto “anjos e demônios”. E a precisão dos detalhes foram tão bem colocados que começo a estudar uma viajem para um certo templo na América Central (quando o dinheiro me permitir claro).
Aqui também, o inimigo se mostra muito mais esperto, mais poderoso, e começamos a entender seus motivos e reais intenções, porém, os anjos não ficam atrás e um verdadeiro oceano de novidades são trazidas à tona da mais profunda possibilidade.
Outra coisa que senti um pouco de falta no volume um foi de romance, aqui ele vem à tona, pequeno, frágil, mas suficiente. Aquele tempero que torna muito melhor o sabor do que se degusta.
E dentre toda essa mistura de referências e nacionalidades, a verossimilhança salta à olhos vistos quando o grande clímax em fim, se inicia. Chefes de estado entram na dinâmica do livro junto com a maior organização global que reúne interesses de vários povos.
Surpresas não param de acontecer, e todo cenário riquíssimo ganha nossa mente, e desligá-la da aventura tornasse penoso. É um livro grande, e pelo número de aventuras e segredos e mistérios e batalhas pode cansar o público, mas recomendo, continue a leitura, pois nas próximas páginas, a magia sempre volta com força total.
Agora, Ethernyt, não tem medo de causar polêmica, tocando em quesitos religiosos, desde católicos, evangélicos (um pouco menos) e pagãs, colocando tudo no mesmo pote de misticismo, incredulidade e, por incrível que pareça, do próprio poder da fé. Pois, se no primeiro volume a criação da própria raça humana passa por uma releitura, tudo em que acreditamos ou não, assim como todas as organizações religiosas, aqui passam pela mesma tela e tinta que transformam tudo em um novo quadro, muito mais sombrio e fantástico.
Para quem gosta de uma boa aventura, com personagens encantadores, bom humor, criatividade e pesquisa em grau extremamente elevado e feito com muito zelo, eu recomendo.
E caso, o volume dois chegue em suas mãos antes do um, e a curiosidade for muito grande, pode ler, que o autor sempre explica o que se passou. Mas, se você leu o primeiro e ainda não leu o segundo, não espere mais.

Dica. Professores de história e geografia do ensino médio poderiam usar esse livro com seus alunos para lhes despertar o interesse e aguçar a vontade de pesquisa, além de incentivar a leitura com um livro que pode ganhar fácil o público adolescente com mais de 15 anos, mesmo sendo uma obra bastante adulta.

Eu fico muito feliz, por ter o meu autografado. Márson Alquati, é sem dúvida, um grande autor de ficção.

Mais sobre o livro no blog Ethernyt

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mulher

Eu poderia dizer muito,
mas a construção fala apenas por si mesma.
Aquilo que não se pode descrever ou explicar,
registro apenas, como imagens de sonhos
e rupturas na realidade.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Resenha Cyber Brasiliana

Sem precedentes. Incrível. Chocante. Perfeito.

Autor Richard Diegues
Editor: Gianpaolo Celli
Revisão: Fabrícia Carpinelli e Romaniv Chicaroni
Projeto Gráfico:Verena Peres
Capa: Phil e Ico
Diagramação: Richard Diegues
Tarja Editorial.





Já faz um tempo que li esse livro, mas não fiz a resenha pois me sentia inapta por dois motivos. Primeiro pela complexidade do gênero “ficção cientifica” com a qual não tenho a menor familiaridade, e em segundo lugar, pelo estado de perplexidade e embriagues que fiquei após a leitura.
Richard Diegues - que além de escritor é editor e consultor tecnológico - nos diz na apresentação do livro sobre seu intuito de escrever um romance de Sci-Fi em um cenário cyberpunk que qualquer pessoa não familiarizada com as nomenclaturas tecnológicas pudesse se aventurar na história sem problemas e sem prejudicar a fluidez da leitura. O autor realmente consegue fazer isso. As terminologias mais complicadas vem e vão sem problemas, e conforme seus funcionamentos são descritos elas se tornam mais próximas e palpáveis.
Particularmente minha dificuldade (que foi apenas inicial) foi com o cenário em si, pois a estética futurista sempre me causou estranhamento e distanciamento. Mas aceitei a leitura aberta, e de bom grado me surpreendi com a capacidades do autor e as qualidades desta obra que é guiada pela humanidade e profundidade dos personagens, a riqueza dos cenários, a inteligencia nas divisões politicas e culturais desse mundo distópico e todos os outros ingredientes de um bom livro de ficção como perseguição, batalhas, romance, corrupção, vilões egoístas e poderosos, e seres humanos levados ao extremo de seus sentimentos mais variados e caóticos.
Agora, vamos ser mais específicos.
A capa. O personagem principal reina entre luz e sombra, com um óculos que lhe cobre o rosto, e na mão uma arma de fogo. A imagem parece ter sido construída com preto, branco (logo tons de cinza) e azul e verde. Tudo isso traz um resfriamento, combinando bem com a aura tecnológica e complexa do livro. Eu gostei muito da arte. Não parece uma obra que traria para si qualquer público, mas desperta curiosidade e ilustra bem o livro sem revelar detalhes.
O cenário. Podemos dividi-los em dois âmbitos que se somam. O primeiro é o político onde diferentes alianças e poderes assumem novos ares e estruturas, onde abaixo da linha do equador tudo parece ir muito bem economicamente, e do outro lado, tudo está incrivelmente caótico e o poder é mantido pela força. O segundo é a tecnologia do Hipermundo, um lugar ficcional (como a internet), mas onde realmente o mundo se baseia para sobreviver. Digamos que: é um ambiente onde todo o mundo se conecta com muita frequência e desde dados bancários até relações de amizade são feitas e firmadas. Mas ambas as realidades que se somam nos chegam de uma maneira bastante natural, apesar do estranhamento que ai possa haver, logo tudo é tão perfeitamente condicionado que a história caminha como se estive acontecendo na sua cidade. Esse universo tem seus primórdios, mas como é falho, também é finito, como todo sistema e regime que passa por crises até cair e então, precisar ser refeito.
O que tem um grande peso também na ficção, é sua capacidade de dialogar com a realidade atual tanto como metáfora como também como uma causa ou consequência do que se vive. E isto está lá: Metáfora e consequências provaveis. E a pesquisa somada a um enredo bem estruturado me vem como um respeito ao leitor, por acreditar na sua capacidade de raciocínio, não fazendo-o engolir um mundo novo totalmente incompreensível e não palpável.
Mas Cyber Brasiliana, não é a história de um mundo, é a história de pessoas. E os personagens, para mim são o ponto chave.
Não vou detalhá-los para não estragar a surpresa do leitor, mas as construções são do meu gênero favorito, são personagens com personalidades complexas, bem construídas, com suas razões, emoções, momentos de força, de fraqueza, de devaneio, de dúvidas de si mesmo, falhas, motivações reais, medos, virtudes e defeitos. Além disso, os personagens são mutáveis, evoluindo conforme a trama, e também revelam segredos. O autor nunca nos diz tudo a respeito das reais intenções de cada um, tanto os protagonistas, quanto os antagonistas, revelam reais intenções e motivações ao longo da trama.
Outra questão que adorei no livro é o tom real dos acontecimentos. Não existem heróis predestinados, ou vilões que são pura maldade, porém, há violência e bondade como existe nas coisas que acontecem no dia a dia, no mundo inteiro.
Como um registro da vida de alguém, uma cortina é suspensa a cada passo que se dá dentro da narrativa, com amor, surpresas, perigos, máscaras que caem, certezas que são erguidas. E o melhor tipo de herói, aquele que se torna um ao se deparar com a situação problema e resolver enfrentá-la por seus princípios e pelo bem maior.
O final realmente surpreende. Ele é sólido, com sofrimento, alivio, esperança e cicatrizes físicas e psicológicas que marcam tanto os personagens quanto o leitor. Não se sai do mesmo modo dessa leitura, cumprindo o real papel de um livro (na minha opinião) que é tirar o leitor de seu lugar de conforto e fazer parte da sua vida.

Eu fico muito feliz por ter adquirido esse livro, ainda com autógrafo, e recomendo essa obra aos quatro ventos.

Um romance ficcional de alto nível, um dos melhores. (ou até mesmo, o melhor que já li).
Richard Diegues é um dos poucos autores que promete mundos e fundos na sua obra, e cumpre com excelência. 

Mais informações aqui:

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Perse - Melhores Capas

Uma iniciativa que vale a pena divulgar e participar.


Todos os autores independentes ou não, junto com seus editores e amigos buscam uma arte interessante para a capa de seu trabalho, mas sem um retorno do público, a tarefa fica muito difícil e perde a funcionalidade que é comunicar, e claro, fazer com que pessoas interessadas pelo assunto escolham seu livro, e nao outro.

Assim a Perse quer nossa opnião. É bem fácil.


Vote no Prêmio Melhores Capas


O PerSe lançou o Prêmio Melhores Capas, que escolherá a capa mais instigante e mais vendedora, dentre os livros que se inscreveram. E todos poderão votar nas três melhores capas.




E o mais legal é que, como forma de agradecer aos votantes, a Perse estará sorteando um iPod Touch entre todos que participarem.



Para votar clique no link perse e cadastre-se. Depois de se cadastrar você receberá um e-mail com login e senha para a votação. Vote e você estará concorrendo.



 
Para mais detalhes sobre a promoção acesse: Prêmio Melhores Capas 








Bom pessoal. eu já votei e estou divulgando por aqui também.
As capas são de títulos e gêneros bem variados, e a votação é super rápida. Nos dê sua opinião de leitor, crítico, ou de consumidor apenas.

E, assim que o resultado, tanto das capas como do sorteio sair, eu também comunicarei aqui pelo blog. OK?

Espero sua participação.






quinta-feira, 29 de setembro de 2011

No dia da leitura leia um livro lusófono.








Dia 12 de outubro é o Dia Nacional da Leitura, e o Alvaro Domingues do Blog do pai nerd começou a divulgar pelo facebook a ideia de neste dia ler um livro lusófono, ou seja, português, brasileiro, angolano, moçambicano, açoriano, etc..

Para deixar ainda mais interessante a Celly Borges do Mundo de Fantas nos deu a ideia de nesse dia postarmos a resenha de um livro nesse parâmetro.

Apesar de por aqui só ter resenha de livros nacionais, resolvi participar também.

Ah, mas 12 de outubro não é o dia das crianças? Sim, também é. Então vamos falar um pouquinho sobre esse projeto entusiasta mas bastante pé no chão.

“Todo dia é dia de ler. Lê pra mim?” A ideia do projeto que já existe a três anos é de justamente incentivar a leitura com e para as crianças. Os aficionados por livros sabem, a leitura pode mudar a vida das pessoas.

O projeto na integra e varias formas de participar você encontra aqui: ecofuturo.org.br


Então, Alvaro Domingues e Celly Borges, aceito e vou colocar as mãos à obra, pois com certeza, dia 12 teremos uma resenha muito especial por aqui. Qual será? Surpresa.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Reino das Névoas

Sete mundos onde a fantasia é tão bela quanto cruel.


Autora: Camila Fernandes
Capa e ilustrações: Mila F. (a autora)
Editores: Richard Diegues e Gianpaolo Celli
Revisão: Luciana Garcia
Projeto gráfico e Diagramação: Fabiana Fernandes
Tarja Editorial Ltda.





O Livro da ilustradora, revisora e contista, Camila Fernandes, tem um diferencial antes de tudo, como projeto, pois a autora foi selecionada pelo ProAc (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo) através de um edital para a impressão de sua obra. Isso é claro que já é por si só um mérito, porém, quando penso na capacidade que ela demostrou para conseguir o edital com um projeto que tinha como premissa – assim imagino – falar sobre a verdade por trás dos contos de fadas, ou contos de fadas para adultos, é que também reflito sobre como ela deve ter se esforçado desde então. Mas o que vale constatar é que o prêmio foi muito bem colocado e o livro que se formou é realmente muito bom.
Falando sobre a estética do livro, desde a belíssima capa, o cuidado e o trato já se mostra aparente e de muito bom gosto. E por dentro você também encontra sete ilustrações que correspondem respectivamente a sete contos de sua autoria. Os desenhos em tons de cinza são delicados, mas de traços firmes e cheios de detalhes, e me levou até as pinturas em vitrais, tapeçarias, livros antigos e qualquer outra sensação que já contribui para a atmosfera das histórias, um tempo distante e imemorial. Não são desenhos realistas, pelo contrário, estão estilizados bem ao ponto da fantasia.
O livro também é impresso em um papel (aparentemente reciclado) de tonalidade amarelada e muito resistente. Da gosto tocar as páginas enquanto se imerge nas palavras.
Não há erros de revisão. O que também está de parabéns.
O livro saiu pela Tarja Editorial que fez um trabalho excelente na diagramação que ficou simples, funcional e muito bela.
Agora, vamos às escritas.
O livro traz na sinopse contos de fadas cheios de verdades, crueldade, violência e erotismo, características que foram banidas das histórias originalmente. E a Camila cumpriu o que prometeu de um modo diferente do que eu esperei.
Por essa chamada eu imaginava algo que caminhasse muito mais pelo soturno do que pela fantasia, e eu me enganei, e gostei disso ter acontecido. A autora conseguiu trazer à tona tudo que prometera sem romper com a beleza, a magia etérea na qual os contos de fadas se tornaram para nós hoje como referência.
Pensando então sobre eles, acredito haver três tipos de contos – ao meu ver – pelos quais ela nos guia.
Há histórias em que tudo é totalmente novo. Os personagens são erguidos de fontes antes nunca provadas, e as tramas ricas em detalhes e surpresas nos levam a situações sublimes e vencedoras, mesmo que através de caminhos sombrios e truculentos, e seriam “O Chifre Negro”, “A Outra Margem do Rio” e “A Espera”.
Um outro tipo de conto é uma espécie de cotidiano fantástico, onde tudo é simples, quieto, bastante melancólico e quase irônico, aqui eu encaixaria “O Lenhador e a Sombra” e “A filha do Fidalgo”, que são histórias tocantes mais pela sua parcela de realidado do que pelo encantamento ou sobrenatural.
E “A Torre Onde Ela Dorme” e “Reino das Névoas”, são incriveis, mas me deixaram em cima do muro. Gostei muito de ambos, são minuciosamente trabalhados e é impossível parar a leitura no meio, os personagens são fortes e têm as tramas mais complexas, porém, seja inspiração ou releitura, é fortemente presente a semelhança com contos de fadas conhecidos.(Isso também há no “A Filha do Fidalgo”, mas ainda assim este se encaixa melhor na separação anterior.) Talvez eu realmente não imaginasse que esse tipo de características fosse surgir no livro. O que acontece então é que lindas histórias não ficam presas em si, elas acabam nos levando para essas outras histórias conhecidas, o que é tanto repertório quando certa fuga do enredo principal.
Os sete contos, como dito, são de grande beleza. Camila Fernandes soube traçar as palavras sem adornos, sem grandes metáforas ou qualquer complicação, dando a sensação de que se pode contar e ouvi-las sem problema, pois elas envolvem pela emoção e pelas paixões.
A criatividade da autora também se revela nos males que ela trouxe para as histórias, desde estupro, até melancolia e uma necromante. Porém as cenas mais densas são rápidas, são flashes que nos assustam e só nos damos conta depois de terem partido. Outras vezes são tão cruas e verdadeiras que acabam chocando ainda mais. São fantasias muito reais.
É um livro de contos que cumpre sua principal função, quando acaba uma história lhe da vontade de correr para a próxima e devorá-lo. A leitura flui muito bem, é cheia de diferentes sensações e prazeres.
Não é o tipo de livro de terror, de grande batalhas ou carnificina. É um livro de fantasias palpáveis e que uma mente aberta facilmente assimila e mergulha. Leia. Recomendo.
“Reino das Névoas – contos de fadas para adultos” não é só um lindo livro com uma linda capa (a mais bela que vi até hoje dentro e fora da literatura nacional) como é uma ótima leitura. Um livro de conteúdo que presa o cuidado com as palavras, a sinceridade e um entretenimento que nos ensina e nos faz pensar com sutileza a cerca de vida, e com seriedade a respeito dos mitos nos quais muitas vezes nos baseamos para formar nossas personalidades mesmo sem querer.

Mais sobre o livro, ilustrações e outras resenhas você encontra aqui:

Onde comprar você também encontra no blog acima, mas eu sugiro na Loja da Estronho, onde você ganha dois marcadores de página.




quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Doença e Cura

Uma história sobre vampiros, e não sobre um único vampiro.

Autor: Fabian Balbinot
Editora: Alcance
Revisão: Lena Nascimento de Moraes
Capa: Ulisses Lima
Editoração eletrônica: Rafael Porto
Editor: Rossyr Berny



Acho importante dizer que comecei a ler o livro antes de ler a sinopse (uma forma de jogo comigo mesma, mas enfim...) e dai que não imaginava que era um livro sobre vampiros. Mas é.

A capa de Ulisses Lima é incrivelmente simples e de bom gosto. Uma mancha de sangue pincelada no fundo branco tem um ar de mistério, de pouca sugestão, de “limpeza” onde existe algo fora do lugar. Achei realmente muito boa, e realmente nada me dizia a cerca do universo sombrio dos vampiros. Dai a surpresa que me deixou alguns minutos parada até absorver a informação.
Passado o susto, e lida a sinopse, voltei para a leitura. Agora estou aqui me perguntando como começo a resenha desse livro.
Existe uma discussão que tem se apresentando com certa frequência na ficção que é até que ponto um criador (autor, cineasta, roteirista, ator e etc) pode modificar um mito, e outro ponto seria o que é melhora e o que é degradação? No coletivo inconsciente podemos até achar que pensamos, de uma maneira bem geral, separada apenas por camadas de conhecimento, da mesma forma relativo às mudanças nos mitos. Mas isso não é verdade. Pois discussões a cerca disso parecem sempre ferver, tanto com os comentários mais afoitos e apaixonados, como os que tem mais indiferença do que preocupação com a “causa das criaturas sobrenaturais”. E vampiros estão nessa roda mais que nunca e cada vez mais. Arrancando paixão e ódio.
Então, eis que existe um livro chamado “Doença e Cura” - e ai, meu deus, essa resenha vai ficar grande – que bagunça tudo mais ainda.
Mas antes, vamos à forma.
O livro tem sete capítulos (grandes, diga-se de passagem) que são na verdade diferentes acontecimentos com vampiros que tiveram algum contato com uma certa “desgraça” que os vem abatendo no mundo todo, causando todo o tipo de problemas em seus corpos e habilidades.
Doença e Cura, até então não deixa claro que a doença é o mal que acomete os vampiros (as criaturas no topo das espécies no mundo até o momento) ou se esse “mal” que os agride na verdade é a cura para a doença de “ser um vampiro”. E parece que tudo depende do ponto de vista.
Para começar, existe então esse “mal” que acomete os vampiros e se alimenta do sangue deles para continuar a existir e para evoluir. Esse “mal” porém é dotado de inteligência – e é bastante egocêntrico diga-se de passagem – pois subjuga tanto os humanos quanto os próprios vampiros sempre que aparece, e nunca se “apresenta” da mesma forma apesar de ter formas de caçar os vampiros ou estudá-los que podem se repetir.
Este foi um ponto onde Fabian Balbinot, acabou por se complicar um pouco. Os personagens que são atacados pelo “mal” não se conhecem, e essa anomalia que é genética, sanguínea, física e muito mais, acaba repetindo suas qualidades, capacidades e buscas para esses diferentes personagens, o que se tornou repetitivo e um tanto cansativo. Pois aquilo que a tal “anomalia” diz a cada manifestação quase não soma para nós, leitores, faculdades realmente novas.
A trama não nos leva a nenhum lugar especifico na geográfica que conhecemos. Cidades grandes com esgotos enormes, campos, descampados, neve, castelo, tudo na época atual mas oferecendo características físicas apenas para estabelecermos os locais em nossa mente ao bel prazer do nosso conhecimento prévio e criatividade.
Os vampiros em si não inovam tanto. Me pareceu muito com o universo criado pelo jogo de RPG: “Vampiro a Máscara” - que cá entre nós é o mais completo, detalhado e bem criado até hoje – com famílias subdividas em domínios próprios, personalidades e atributos diferentes. Mas é parecido também com vários mitos como os de vampiros que se metamorfoseiam em animais, em névoa, em sombra e tudo mais. Onde muda? Existe um enfoque para dizer que os vampiros não são mortos vivos, na verdade são uma adaptação genética com incríveis vantagens e defeitos. E como todo capricho da natureza, ela cria algo para se sobressair a eles.
Agora, deixando os vampiros um pouco de lado.
O autor escreve de uma maneira forte, acida, direta, repleta de opinião que se impõe a partir da fala dos personagens. Ele fala de preconceito de classes, da globalização, do consumo desenfreado, da tecnologia que não passa de obsolescência programada na corrida pelo ouro das industrias, da corrida da própria vida humana sem sentido. Ele toca nos grandes vazios humanos, no lixo e na podridão das cidades, no desrespeito, na individualidade, na pobreza, nas ambições, no sadismo. Ele traz crianças acima da média, pais desfigurados em sua função de responsáveis e educadores, e muito mais. E ele nunca é intermediário ou apaziguador. Ele é incisivo e quase “ditador” em suas opiniões e criticas. Mas ai é que está: Pessoalmente eu gosto desse tipo de escrita e concordei com praticamente tudo que ele diz, mas quando se é muito sincero, as possibilidades de fazer “inimigos” também é grande. E há que se ter muito cuidado para levar a sério o que é sério, e compreender o que é sarcasmo. Este livro não é apenas um divertimento.
Existe também um ar muito forte de perspicácia biológica e comparativa no livro. Com explanações em genética, predadores de todos os tamanhos, e termos complicados das mais diversas áreas da ciência natural, mas não chega a dificultar a leitura. Tudo é muito bem explicado e justificado.
O terror. Um ingrediente que foi utilizado em vários níveis e estilos. Carnificina, terror psicológico, tortura, experiencias científicas, sadismo, por ai vai. Não é um livro de grandes perseguições ou de batalhas. Ele é mais centrado, mais pausado, entrecortado e não linear.
Nos capítulos 5 e 6, existe maior linearidade, gerando um correspondência e sequências com o personagem que vem encerrar a trama, e no capítulo sete, o desfecho de tudo e os apontamentos de um futuro.
A repetição já mencionada junto com o fato dos capítulos serem bem extensos cansa um pouco, e trava a leitura, o que parece ser a forma de melhor engolir a história e compreendê-la, ou seja, por partes interdependentes, do mesmo modo que a tal “anomalia” age no mundo.
Voltando à forma novamente. O autor escreve um capítulo em forma de roteiro de teatro, por um lado, o que até então não passa de um capricho e vontade do escritor, torna-se parte da trama de um modo bastante convincente. Mas ainda assim, esse enredo poderia ter sido melhor explanado como parte de um enredo, e não a peça toda, pois por si só ele não se sustenta devido a várias características que uma peça de teatro precisaria ter.
Apesar das letras pequenas e de não haver nenhuma novidade na diagramação, ela foi bem funcional, e não me causou incomodo. A revisão também parece estar de parabéns.
Para finalizar, o livro “Doença e Cura” possui o enredo mais diferente que já li sobre vampiros. Causa muito impacto, e é importante pela qualidade que possui. Não é um simples romance com vampiros de protagonistas ou coadjuvantes, é um história sobre o universo vampírico, e como o resto do mundo (e não apenas humanos) mas a própria existência, poderia lidar com eles.

A Morte do Cozinheiro

Tamanho não é sinônimo de qualidade. E Allan Pitz, sabe disso.


Autor: Allan Pitz
Editor responsável: Uziel de Jesus
Revisão: Alexandra Resende
Capa: Melissa Roncete
Diagramação e acabamento: Above Publicações
Editora: Above Publicações



 

Uma característica marcante neste pequeno livro é a sagacidade na escrita. A temática abordada segue a linha: vingança, dor de cotovelo, crise amorosa, paixão desmedida, uma quase psicose e telefonemas secretos para aguçar tudo. Porém, muitas vezes não é o que se faz e sim, como se faz.
A história é contada em primeira pessoa, onde o personagem principal seria o assassino do cozinheiro, como diz o título e também logo na primeira frase do livro. Portanto das três perguntas a serem respondidas em uma história: “O que vai acontecer?”, Quem irá fazer?”, e “Como irá ser feito”, as duas primeiras já são respondidas logo de cara e substituída por uma outra: “Porque?”.
Allan Pitz não parece ser o tipo de autor – ao menos nessa história – que se preocupa com fatos e personagens mirabolantes e inovadores,o que é parte responsável pela tal “sagacidade”.
A partir do momento em que ele coloca pessoas normais, em um ambiente cotidiano e vivendo coisas que todos vivem, seus apontamentos irônicos, cruéis e desenfreados afetam a todos. Uma experiência cheia de sarcasmo desmedido – como o próprio amor do protagonista pela namorada perdida – que revira as entranhas e as arranca para a visão analítica de uma pessoa totalmente perturbada, que é o protagonista.
Existem pouquíssimos personagens, e apenas o suficiente é dito de cada um deles quando surgem.
Um ponto positivo é que como a narrativa beira a insensatez trazida pela grandiosidade de um sentimento, os personagens ganham inúmeros adjetivos e característica físicas e emocionais para que o ato do assassinato seja justificado por ele, e acabam revelando personalidades exacerbadas e caricatas. O que tem tudo haver com a proposta.
A leitura é bastante leve e fluida, cheia de imagens e metáforas que nos fazem rir, (o riso catártico, de quando se reconhece a verdade do nosso dia a dia).
A diagramação buscou ousadia, com desenhos em vermelho de um tomate cortado ao meio em todas as páginas e no cabeçalho o nome do autor e do livro também em vermelho. No papel que é bem branco, acabou ficando um pouquinho poluído. Mas tem tudo haver com a descontração e loucuras presentes no livro.
A capa em si já é uma paródia do título que também não fica atras. Super bacana, ela está totalmente de acordo com o texto, sendo até uma extensão dele.
Muitas vezes as justificativas do personagem quase chegam a convencer a nos debandar para o lado dele e concordar com o seu ato, talvez não com a consumação dele, mas sim, como muitas vezes nossos pensamentos podem ser incrivelmente cruéis e insensato por nos agredirem de alguma forma.
Não reparei em nenhum erro de revisão. O que é muito bom. Se existir, é mínimo.
As referências presentes são poucas, de um ou outro lugar no Rio de Janeiro e um ou outro escritor. A crítica está presente o tempo todo. Seja em relação ao transporte público, aos interesses mundanos e pessoais, ao dinheiro, à mídia. Tudo em que ele poe a mão vira motivo de análise e “alfinetadas”, assim como ele mesmo.
Uma questão que me causou bastante incomodo foi a falta do desfecho, ou de um desfecho mais pontual e menos etéreo. Um dos pontos mais importantes que ligam toda a trama não é explicado. Ele deixa um ou outro tênue fio condutor para interpretações, mas que não foram suficientes para realmente sugerir uma ou várias possibilidades.
Isso se poderia ser explicado com o fato do enredo ser em primeira pessoa e o personagem principal não descobrir, ou se recusar a pensar sobre o assunto. Mas se existe realmente um motivo para o autor, ele poderia dar um jeitinho de tornar sua ideia um pouco mais precisa.
O livro como todo é muito bom. Vale a pena ser lido. Juntando o fato de ser curto, de não prometer na sinopse ou no título mais do que tem a oferecer, e por ser de uma inteligência absurda relativa à construção das frases e todo o contexto, acho pouco provável que não agrade alguém.
Fica a dica.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Draco Saga

Um dragão e uma história pra contar.

Autor: Fábio Guolo
Revisão: Fabiano Guolo, Valéria de Lurdes do Valle e Gabriela Coirados.
Capa e diagramação: Leandro Bittencourt
Impressão e acabamento: Gráfica Athena

 


Para começar a falar sobre “Draco Saga” acredito que a melhor palavra à utilizar seria “aventura”, aventura em todo o contexto que ela possa abranger.
O livro primeiro livro da saga, trata de religião colocando em dúvida preceitos cristãos principais como Deus e Jesus Cristo, mas também cria vários enlaces referentes à viagens astrais, espíritos e reencarnação.
Outra crítica que está presente nas páginas do livro é a ideia de que os seres humanos são pragas capazes de causar o caos e a destruição, além de não haver respeito ou dignidade entre si.
Mas, Fábio Guolo também buscou um diferencial trazendo como personagem narrador um Dragão, e toda uma sociedade draconiana.
Uma característica interessante é que os personagens sofrem durante o enredo mudanças de personalidade, sejam elas pelas vivências adquiridas ou por fatores mais “mágicos” ou “espirituais” o que torna a leitura mais interessante criando surpresas ao leitor. Muitos desses personagens são bastante carismáticos e bem reais em suas atitudes que permeiam a bravura, a alegria, a ironia, a graça, a brutalidade entre outros, o que corresponde as duas principais raças citadas.
O começo da leitura é um tanto difícil, pois entender a graça e sentimentos de Dragões prepotentes é sempre difícil para quem não está habituado com a leitura, genero ou gosto, mas essa sensação também passa durante as páginas que são viradas a procura do próximo desenlace ou problema a ser averiguado. Uma sacada esperta é que várias vezes os personagens caem em contradição nas suas atitudes, o que caracteriza bem o momento de transformação que estão vivendo.
Um ponto de vista interessante é que Fábio Guolo não se conteve em trazer humanos em feudos europeus, e sim, trouxe mesmo que não profundamente, características de outra etnias como árabes e bárbaros unos, além de romanos e “espartanos”.
Outras criaturas místicas são apenas citadas, e aparecem no livro apenas como referência pois o foco esta realmente nos dragões, que representam a ordem, a disciplina e a praticidade, e do outro lado os humanos que são desvendados o tempo todo, tanto seus defeitos, como suas virtudes.
Os cenários descritos são belos mas restringem-se ao necessário, sem grande definições minuciosas o que de fato poderia travar a leitura dinâmica que a obra propõe.
A violência existente está em uma medida bem funcional. Não há grande derramamentos de sangue e carnifica, mas a cada batalha de pequeno, médio ou grande porte travada o autor não poupou mortes.
Tudo que o autor descreve desde organizações ou modos de se produzir magia, foram embasados em teorias, mesmo sendo fictícias, bastantes firmes e cheias de lógica tornado a obra uma espécie de jogo bem amarrado e com muitas regras.
A arte do livro é bastante interessante pois retrata bem a ideia de uma época passada cheia de poder e que definhou. Tem uma capa bonita e um mimo nas folhas que iniciam cada capítulo.
Os revisores deixaram passar alguns errinhos. Mas nada grave também. (ao menos não que eu me lembre).
Estruturalmente a história tende a ganhar valor conforme tudo se complica e onde os próprios dragões começam a perder suas máscaras e os humanos, mesmo que sejam poucos, começam a ganhar espaço. E do meio para o fim fica mais fácil de se identificar com os personagens de ambos os lados e torcer por eles.
O livro porém, é bastante voltado para quem gosta de aventuras medievais, histórias sobre criaturas místicas e jogadores de RPG (o que por sinal é um público cada vez maior, que consome e merece ter cada vez mais obras para degustar e embalar os jogos).
E por fim, voltamos ao início. Draco Saga é uma história de aventura, de descobertas, de um mundo de fantasia, apesar das críticas presentes no livro, não traz nenhuma grande teoria sobre elas ou afirmações concretas que podem nos levar a questionar a maneira que o mundo se tornou. E apesar de tudo que envolve o mundo mágico da trama, os acontecimentos são muitos simples (entenda simples como algo bom) pois as premissas e os desejos e fúrias são bastante palpáveis, criveis e, porque não dizer, humanos.
Uma leitura descontraída e bem fluida. Com voos horizontais sobre uma terra mágica, e alguns verticais em relação ao ser humano. Draco Saga consegue divertir e em certos momentos emocionar.

Mais informações sobre a primeira obra da saga, onde comprar e mais sobre o autor você encontra no site oficial: dracosaga.com


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Livraria Limítrofe: O Adeus

O livro sem capa.

Autor: Alfer Medeiros
Diagramação: M. D. Amado
Editora responsável: Celly Borges
Revisão: Celly Borges
Editora Estronho
Selo Fantas.




Para quem vem acompanhando os trabalhos da praticamente recém-nascida Editora Estronho, sabe que o que ela vem desenvolvendo é de uma qualidade gráfica e criatividade impressionantes. Mas ousadia tem limite? Se tem, Marcelo Amado e sua parceira Celly Borges ainda não chegaram lá, pois desde o anunciado do lançamento do primeiro livro do Selo Fantas, já se prometia mais uma “loucura”: um livro sem capa.
Para entender melhor esse projeto, vamos falar antes sobre o que é o Selo Fantas. Celly Borges presente como revisora na Editora Estronho já há algum tempo, agora dirige um selo cujo nome foi inspirado em seu blog: Mundo de Fantas, com resenhas de livros, dicas sobre leitura, promoções entre outros. O “Selo Fantas” então veio com a proposta de trazer para dentro do universo esquisito da editora, um canto para a literatura juvenil. E “Livraria Limítrofe” do Alfer Medeiros é sua primeira obra.
(Então “Livraria Limítrofe” é um livro para crianças e adolescentes? Não! Ele também é para esse público, mas não somente.)
Alfer Medeiros (autor de “Fúria Lupina”, um livro forte em diversos aspectos) aparentemente de maneira um tanto despretensiosa criou a fantasia que rege esse livro, que tem duas grandes motivações – propositais ou não.
A primeira é que o livro refere-se a muitas outras obras dos mais diferentes universos da literatura que saltam do papel até que os enxerguemos com características de personagens e autores de todas as épocas, porém, sem citar-lhes os nomes. Isso, para um leitor de um único gênero ou poucos, cria a identificação com um ou outro “capítulo” do livro; e para o leitor que devora de tudo, irá rir e se divertir muito com diferentes passagens que tocam os mais diversos gêneros.
Em segundo lugar, o mundo que se desbrava e se renova a cada página do “Livraria Limítrofe” é tão mágico e pungente que quem não está acostumado à leitura logo irá querer buscar maiores fontes para seu divertimento e, porque não, conhecimento. Agora, não é necessário ter nenhuma bagagem para entender a história, pois cada momento único é dotado de aventura particular e tem seu próprio clímax e desfecho.
Cada “capítulo” do livro é uma pequena história contada em primeira pessoa que consiste na experiência vivida por um personagem dentro da Livraria Limítrofe, um lugar regido por magia onde todos os conhecimentos literários daquele que a visita tomam formas ou ganham vida bem diante de si.
Cada personagem-narrador, tem uma personalidade única e justamente por isso, diferentes repertórios que são personificadas dentro da Livraria, onde é claro, só entra um visitante por vez.
Então podemos dizer que existe o cenário fixo, que é realmente a Livraria e tudo que há dentro dela como manuais, livros de verdade, passagens secretas, um aquário entre outras peculiaridades criadas pelo autor. E existem os cenários paralelos, que se modificam de acordo com a vivência de cada personagem-narrador dentro da Livraria.
Essa alternância também proporciona ver o mundo e a leitura sobre diferentes pontos de vista, mas todos eles escritos com muita responsabilidade e respeito. Alfer Medeiros soube tocar em temas como velhice, ganância, morte, deficiência física, superficialidade, doença e muitos outros com sinceridade, mas também com cuidado.
Todo a história em si está muito leve e divertida. Várias passagens fazem rir, e outras emocionam, e acredito ser impossível não se “ver” em uma ou outra passagem, ou principalmente, não morrer de vontade de ir parar lá dentro por alguns instantes.
O “objeto livro” certamente irá despertar o maior número de sensações possíveis, mas eu particularmente acho o livro mais belo feito pela Editora Estronho até agora.
Não existe capa, e para proteger o impresso o livro vem com uma capinha que faz alusão aos antigos livros de capa dura de couro e letras trabalhadas em dourado, com incríveis detalhes, agora por dentro que está a verdadeira beleza.
As páginas são de um cuidado impressionante, as folhas amareladas juntos com as letras adornadas e as bordas quase barrocas no início de cada capítulo deixaram a obra com um ar antigo e leve ao mesmo tempo. As palavras que melhor definem a diagramação é a simplicidade e o bom gosto.
Do lado de fora se pode ver a costura das páginas, e as folhas iniciais e finais são um pouco mais grossas para não prejudicar o exemplar.
A Editora Estronho, nessa obra, veio validar sua chamada “...tudo até literatura” com uma obra totalmente diferente de seu repertório já publicado, e Alfer Medeiros nos mostra que não é escritor de um único gênero.

Para entender na prática, no blog do livro você encontra um capítulo extra (que posteriormente foi colocado no livro) e muitas outras curiosidades sobre essa obra, inclusive o Manual do Livreiro Limítrofe que também está no fim do livro.

Para adquirir, é só entrar na loja on-line da estronho, e adquirir seu exemplar junto com um lindo marcador e botom.

A editora também disponibiliza um arquivo para degustação e você encontra muito mais no blog do livro livrarialimitrofe.blogspot.com.





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